Pontos-chave
- Um decreto de Ano Novo permite que os agentes de inteligência da Argentina “prendem” pessoas, inclusive sem ordem judicial.
- O governo diz que está a modernizar a segurança para fazer face às ameaças actuais, enquanto os críticos alertam para um desvio da polícia secreta.
- A verdadeira batalha passa agora para o Congresso e os tribunais, onde os limites do decreto serão testados.
Os serviços de inteligência da Argentina começaram 2026 com uma nova descrição de trabalho: agora podem capturar pessoas fisicamente.
O Presidente Javier Milei assinou o Decreto 941/2025 em 31 de dezembro de 2025, e entrou em vigor quando publicado em 2 de janeiro de 2026.
A medida reescreve partes fundamentais da Lei Nacional de Inteligência do país, mantém a SIDE (Secretaria de Inteligencia de Estado) sob controlo executivo directo e cria novas estruturas de contra-espionagem e de ciberinteligência destinadas a fazer face às ameaças do “século XXI”.
O ponto de inflamação é uma nova cláusula que estabelece que o pessoal de inteligência pode “apreender” indivíduos em três situações: durante atividades de inteligência, ao atender a um pedido judicial ou quando um crime é flagrado em flagrante.


O decreto de inteligência de Milei confunde os limites entre espiões e policiais
O texto também diz que os agentes devem notificar imediatamente as forças de segurança ou policiais competentes. Até agora, a arquitectura jurídica da Argentina tentou traçar uma linha clara: os órgãos de inteligência não deveriam deter poderes coercivos ou desempenhar funções policiais.
Os defensores argumentam que a mudança formaliza principalmente algo que todo estado precisa em emergências. O processo penal da Argentina já permite prisões sem mandado em casos de flagrante e até reconhece a apreensão de cidadãos quando alguém é pego em flagrante.
Nessa leitura, o decreto trata menos de construir uma nova força do que de colmatar lacunas operacionais e, em seguida, entregar a custódia à polícia.
Os oponentes veem algo mais sombrio nos detalhes. O decreto descreve o trabalho de inteligência como inerentemente secreto, expandindo o sigilo ao mesmo tempo em que introduz um poder que toca a liberdade civil mais básica: a liberdade de movimento.
Também impõe funções de contra-inteligência a todo o sector público federal, tornando as práticas de segurança interna uma responsabilidade dos altos funcionários, muito além das agências de espionagem.
A nível internacional, a maioria das democracias liberais mantém os serviços de inteligência civis afastados dos poderes de detenção, deixando as detenções à polícia sob cadeias judiciais claras.
Alguns países administram serviços híbridos de segurança interna que podem prender, mas normalmente sob estruturas judiciárias e policiais. Onde os órgãos de inteligência ganham autoridade de detenção mais ampla, os riscos de abuso aumentam rapidamente.
A Argentina enfrenta agora um teste familiar: se as instituições de supervisão conseguem manter uma fronteira nítida quando um decreto a obscurece deliberadamente.