A cidade de Porto Alegre pelo olhar dos imigrantes, através da linguagem musical, é a proposta do curta Canção Imigrantede Cleverton Borges e Pedro Guindani. Já a luta da Casa Mirabal (organização que acolhe vítimas da violência doméstica e enfrenta o poder público contra a desapropriação da escola abandonada em que vivem como mulheres e seus filhos) é contada por Theo e Claudia Tajes a partir da chegada no local de Maria e sua filha, a bebê Violeta, em Roxo Lilás Violeta.
Esses são exemplos dos títulos gaúchos selecionados para a competição da 17ª edição da Mostra Regional da Fronteira, evento que fortalece a produção audiovisual realizada no Rio Grande do Sul e que anunciará seus vencedores na cerimônia de estreia na noite deste sábado (31), em Bagé. Já a fotógrafa e documentarista Mirian Fichtner (a mesma diretora do premiado longa Cavalo de Santo) concorre com o documentário Quando começa a chover o coração bate mais fortesobre as enchentes de maio de 2024 no estado, indo além de um registro histórico, mergulhando no olhar dos atingidos, “tecendo um inventário dos medos, traumas na vida dos que perderam tudo”, especialmente as periferias periféricas negras e mulheres.
Com essas informações, já é possível visualizar um recorte específico apenas analisando três produções, todas de Porto Alegre (a última sendo filmada ainda na Região Metropolitana e no Vale do Taquari). Outra paisagem cultural presente na seleção é a Fronteira gaúcha, como não poderia deixar de ser.
Produção da cidade-sede do festival, o curta-metragem Plano Zdirigido por Helena Reischak Pereira, foi vencedor da mostra de curtas do IFSul de Bagé, em outubro de 2025. Focado na valorização da identidade local, o filme faz parte do cenário audiovisual da região da Campanha gaúcha e tem cena filmada inclusive no território em que a Mostra Regional é realizada: os trilhos trilhos no horizonte do Centro Histórico da Vila de Santa Thereza.

Dessa região, há ainda mais um título de Bagé, dois de Sant’Ana do Livramento e um de Uruguaiana. O último é o comemoração Trapode João Chimendes, grande vencedor entre os curtas gaúchos do Festival de Gramado: uma obra muito elogiada, que conquista o público facilmente com uma linguagem mais lúdica para ver sobre o universo infantil.
No dossiê publicado pela Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul, o cineasta, historiador da arte e professor Giordano Gio destaca que o menino protagonista de Trapo tem a pulsão da fantasia e faz a seguinte interpretação: “Com a câmera de seu celular e com sua voz, ele invoca monstros e transforma a luz de poste em Lua, tal qual Méliès com suas sobreposições, cenários e, também, tecidos expostos. do cinema é repleto de pequenos atos de contravenção), Leonardo não expressa qualquer temor De alguma forma, ele sabe que o monstruoso brotou de sua vontade de dominar uma linguagem, e que não tem volta, esse monstruoso o transporte embora”.
Na lista, ainda estão representantes de Pelotas, Capão da Canoa e Cachoeira do Sul. “O Festival da Fronteira também é um festival de linguagem, e nosso posicionamento periférico nos estimula um olhar social. A curadaria da Mostra Regional busca apresentar o Rio Grande do Sul contemporâneo, para além da produção de fronteira, uma produção que revela nossa realidade social e que seja representativa da diversidade de nosso cinema”, afirma o Secretário de Cultura de Bagé, Zeca Brito.
Desde o ano passado, a Mostra Regional é realizada em um período anterior ao Festival Internacional da Fronteira, conforme narra o idealizador do evento: “As primeiras edições do Festival foram dedicadas à produção de curtas-metragens realizadas no Rio Grande do Sul, e essas curtas sempre estiveram em diálogos com a produção local, filmes feitos em Bagé e região. Na medida que o Festival se tornou internacional e passou a dar destaque às longas-metragens, era necessário que os curtas regionais buscassem seu espaço próprio mantendo assim seu protagonismo. traduz a produção gaúcha como um todo e se configura também como um espaço de debate onde esses realizadores e suas obras são o centro das atenções”.
Para Marizele Garcia, curadora da Mostra Regional, nesses 17 anos de existência, o certo construiu uma trajetória contínua de valorização das produções locais, dos seus realizadores e das narrativas que emergem desse contexto geográfico, social e cultural específico. “A presença de filmes de BagéLivramento, Uruguaiana e de outros territórios próximos não é algo ocasional, mas resultado direto da vontade de dar visibilidade ao cinema feito aqui. É o segundo ano em que a Mostra Regional acontece dividida do restante do Festival Internacional de Cinema da Fronteira, justamente como uma estratégia de dar ainda mais destaque à produção local e regional, a fim de possibilitar um espaço próprio de circulação, encontro e reflexão. Boa parte dos filmes selecionados é fruto de políticas públicas de fomento, especialmente de Lei Paulo Gustavo, o que possibilitou um recorte mais diverso, incluindo mais produções de cidades do interior”, explica.
“Ao mesmo tempo, a curadoria tem a responsabilidade de trazer esse cinema para a tela sem perder de vista a diversidade estética, temática e política. Muitos dos filmes selecionados abordam questões sociais que nos atravessam, e há um compromisso em fazer com que esses temas cheguem ao público. Não se trata de um recorte temático pré-estabelecido, mas de questões que emergem da própria realidade da região e, consequentemente, do olhar de seus realizadores. A presença dos realizadores na cidade, debatendo os filmes e refletindo sobre o fazer cinematográfico, é parte fundamental desse processo”, complementa Marizele.
Segundo ela, o compromisso de ser um espaço de formação, troca e fortalecimento para realizadores locais é o Norte que orienta a curaria: “Mais do que definir um ‘perfil’, a Mostra Regional do Festival da Fronteira é um espaço de escuta e visibilidade”.
O sotaque musical da imigração

Três músicos, oriundos de outros países, encontram-se no Rio Grande do Sul, para onde vieram por motivos diferentes. A produção do curta Canção Imigrante promove o encontro entre Ana Aristimuño (com o quatro, espécie de violão venezuelano), Dulce Martinez (no violoncelo, também da Venezuela) e Loua Oulai (na percussão, vinda da África) para a formação de uma banda, explorando a linguagem musical como ponto de conexão.
A exibição na 17ª edição da Mostra Regional da Fronteira foi a estreia da obra dirigida por Cleverton Borges e Pedro Guindani em festivais (a demora se justifica pelo fato de que este foi um dos últimos projetos com produção-executiva de Tainara Fraga, falecida repentinamente durante o Olhar de Cinema, em Curitiba, em junho de 2025).
O filme mostra as realidades desses três personagens, a aproximação e lhes dá a oportunidade de mostrar suas referências musicais e misturá-las, fazendo surgir uma nova musicalidade. A ideia do documentário é conhecer as histórias de vida e acompanhar os ensaios, até a apresentação do grupo em um show, aberto ao público, entregando para o destino que os acolheram a nova música que construíram juntos.
Cleverton relata que a curta começa a surgir em 2022, a convite de Augusto Stern, produtor proponente e roteirista: “Ele tem essa ideia de contar a cidade de Porto Alegre através de perspectivas de pessoas que não são da capital. O que eles pensam sobre essa cultura, como é esse atravessamento cultural de virem de outro lugar, se entendem como músicos aqui e como eles dialogam com a cidade, como a cidade dialoga com eles”.
A pesquisa musical de Bruna Paulin descobriu quem eram os artistas que vieram para cá, chegando às meninas da Venezuela e ao percussionista da Costa do Marfim. “O projeto teve mais de sete diários, e a gente teve diversos ensaios e encontros, conversou bastante sobre música e as experiências deles com o estado e a cidade, além de entender o contato com a música. A gente vê que os músicos conseguem conversar entre si porque eles têm um dialeto próprio, têm a sua linguagem e conversam muito sobre isso.”
O diretor reforça que a proposta era criar uma banda que tivesse o próprio sotaque: “Então, a gente tentou produzir um diálogo que fosse traçado e narrado através das experiências deles junto com essa experiência de Porto Alegre, e tente criar um diálogo único”.
Muitas das obras em que o cineasta atuoso estão relacionadas com produções sonoras. “Tenho muito esse contato com música, porque eu sempre fui da noite, de festa, sempre estive em rua, em bar, e sempre fui de muito fácil acesso com os músicos. Gosto muito de ir em um lugar novo e conhecer música nova, e estar em outra cidade, conhecer músicas do lugar”, esclarece Cleverton, reforçando a abordagem, apesar de não tocar nenhum tipo de instrumento, não cantar e nem escrever.
“Meu interesse é por que eu trabalho com som, acredito muito no som do audiovisual e acredito muito no som da música. Eu acho que são artes que se conversam, e a gente tem um diálogo, consegue traçar o mesmo sentimento”, reflete o realizado, confirmando também a influência da família na profundidade dessas conversas.
Bunker Sound Design, estúdio de Stern, responsável pela finalização de som e direção musical (ao lado do próprio Cleverton), é a empresa proponente de Canção Imigrante, em coprodução com Noite Escura (de Patrícia Barbieri).
Filmes em competição na 17ª Mostra Regional da Fronteira

Crédito: Mostra Regional Fronteira/Divulgação
- “Amores Eternos”, de Lucas Guillande (19 min) – Sant’Ana do Livramento
- “Canção Imigrante”, de Cléverton Borges e Pedro Guindani (17 min) – Porto Alegre
- “Fragmento”, de Renatho Costa (4 min) – Sant’Ana do Livramento
- “Limiar”, de Érika Fagundes e João Vitor de Moraes Torres (9 min) – Pelotas
- “Logos”, de Britney (12 min) – Capão da Canoa
- “Mãe”, de João Monteiro (20 min) – Porto Alegre
- “O Jogo”, de Alexandre Mattos e Chico Massimilla (14 min) – Pelotas
- “O Último Relincho”, de Léo Gusmão (12 min) – Bagé
- “Plano Z”, de Helena Reischak Pereira (5 min) – Bagé
- “Quando começa a chover o coração bate mais forte”, de Mirian Fichtner (15 min) – Porto Alegre, Região Metropolitana, Vale do Taquari
- “Roxo Lilás Violeta”, de Theo Tajes (15 min) – Porto Alegre
- “Todos os Bebês Nascem Pelados em Cachoeira do Sul”, de Eduarda Rodrigues e Thiago Beckenkamp (9 min) – Cachoeira do Sul
- “Trapo”, de João Chimendes (19 min) – Uruguaiana