No final da tarde desta segunda-feira (5), hum ato em frente ao consulado dos Estados Unidos, em Porto Alegre, reuniu centenas de pessoas em repúdio à experiência norte-americana contra a Venezuela e em apoio ao povo venezuelano. Estavam presentes militantes de movimentos sociais, estudantis, entidades sindicais e parlamentares. A ação integra uma agenda internacional de protestos que ocorre desde sábado em diversas partes do mundo.
Este foi o segundo ato realizado na capital gaúcha. Ó primeiro ocorreu no domingo (4) e um terceiro está previsto para esta quinta-feira (8), a partir das 17h30, na Esquina Democrática, no centro da cidade.
A manifestação em Porto Alegre teve início de forma de importação por volta das 17h. No entanto, pouco tempo depois, houve repressão da tropa de choque da Brigada Militar. Segundo relatos de participantes, a polícia avançou após a pichação do muro do consulado. Uma mulher e um homem foram detidos. As pessoas detidas estão no 11° batalhão, junto com advogados, elas irão consultar um termo circunstanciado por pichação. Outra manifestante teria sido ferida e quebrada o braço, e foi encaminhada para o Hospital Cristo Redentor.
Defesa da soberania latino-americana
Dirigente da CSP-Conlutas, Rejane Oliveira destacou que o ato foi organizado de forma unificada e denunciou o caráter imperialista da intervenção norte-americana. “A ideia é fazer um ato bem unificado, bem representativo, massivo, porque nós não aceitamos este ataque imperialista de Trump à Venezuela. Ele não tem nenhum interesse em combater o narcotráfico, tanto que acabou de anistiar o ex-presidente de Honduras, que foi acusado e sofre uma punição de 45 anos de prisão”, afirmou.
Segundo Oliveira, o interesse do governo dos Estados Unidos está ligado aos recursos naturais venezuelanos. “Trump está interessado no petróleo da Venezuela. O que está acontecendo na Venezuela, a prisão do presidente Maduro e sua esposa, o ataque que ele fez na madrugada, abre um precedente terrível, porque isso pode acontecer na Colômbia e até no Brasil”, alertou.
Para Oliveira, a resposta deve vir das ruas. “A única forma de combater isso é nas ruas, organizando e exigindo do governo chavista que entregou as armas à classe trabalhadora para se defender do imperialismo. É importante que exproprie as empresas dos Estados Unidos que estão na Venezuela, como exigimos do governo Lula que expulsa o embaixador norte-americano, que cumpre a tarefa de defender essa política repressora e imperialista dos Estados Unidos”, completou.

Repúdio aos ataques e solidariedade ao povo venezuelano
O coordenador-geral do Sindicato dos Servidores Técnico-Administrativos em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre e do Instituto Federal de Educação (Assufrgs), Ítalo Guerreiro, ressaltou que o ato teve caráter duplo: repúdio às ações do governo Trump e solidariedade ao povo venezuelano.
“O que está sendo colocado aqui hoje para a população de Porto Alegre ver são afirmações de quem está contra isso que está acontecendo na Venezuela. Ele é um ato em repúdio às ações do governo Trump em relação aos ataques que fazem à Venezuela”, afirmou.
Guerreiro destacou que as avaliações contra o país já vinham coincidentes, mas que a situação atual representa uma escalada grave. “Os Estados Unidos já vêm impondo avaliações à Venezuela há muito tempo, mas ainda não tinha acontecido uma ação que é quase uma ação de guerra. Além de bombardear um outro país, além de sequestrar embarcações petrolíferas desse país, é você entrar nessa outra nação e sequestrar o presidente.”
Para o dirigente, a ofensiva é inaceitável. “É algo que beira o absurdo do ponto de vista das discussões sobre soberania nacional, autodeterminação dos povos e a necessidade de que as nações se resolvam internamente, sob as suas próprias demandas.”
Ele ainda fez comparação com a realidade brasileira. “Nenhum brasileiro ia querer que uma nação externa invadisse o nosso país para resolver certos problemas que a gente tem aqui. Então é um ato duplo: em repudio aos Estados Unidos, principalmente ao governo Trump, mas também de apoio ao povo venezuelano, que precisa de toda ajuda dos povos latino-americanos e também de todo o mundo.”

Também coordenadora-geral da Assufrgs, Maristela Piedade afirmou que a intervenção gera grande preocupação entre os trabalhadores. “Enquanto representação de trabalhadores e trabalhadores técnicos-administrativos em educação, a gente vê isso com bastante preocupação. Essa intervenção não deve existir. Nós primamos pela autodeterminação dos povos”, disse.
Elau reforço à solidariedade ao povo venezuelano. “Enquanto trabalhadores e trabalhadoras, a gente se solidariza com todo o povo venezuelano. A gente pensa que a nossa soberania deve ser mais importante do que qualquer ataque imperialista, principalmente porque a gente sabe que podemos resolver nossos problemas democraticamente, como a gente acredita que a Venezuela também pode encontrar o seu caminho.”
Piedade também mencionou os interesses econômicos por trás da ofensiva. “Não é necessária uma intervenção como a que ocorreu para que a Venezuela encontre o seu próprio caminho. E a gente sabe também que o objetivo é claro, porque o próprio presidente Trump falou que o objetivo é o saque ao petróleo venezuelano e aos seus minerais.”
Parlamentares e movimentos reforçam mobilização
O deputado estadual Adão Pretto Filho (PT) participou do ato e classificou a ação norte-americana como um golpe. “Estamos aqui em uma grande mobilização dos movimentos sociais e partidos políticos de várias vertentes em defesa da soberania da Venezuela e da soberania da América Latina. Não podemos aceitar essa ação por parte do governo americano, que é um golpe, verdadeiramente um golpe que está ocorrendo na Venezuela”, afirmou.
Segundo o parlamentar, o cenário representa um risco global. “O que está em risco não é apenas o país da Venezuela. O que está em risco é uma possível terceira guerra mundial. Isso coloca o mundo inteiro em uma condição muito perigosa.”
Ele destacou ainda o caráter pacífico do protesto. “Nós estamos aqui num ato pacífico, na frente do consulado americano, protestando em defesa da soberania da Venezuela e de todos os povos.”
Pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a dirigente estadual Gabriela Severo reafirmou o compromisso com a luta contra o imperialismo. “Mais do que nunca reafirmamos a decisão de lutar pela soberania da Venezuela, da América e de todos os povos que se levantam nesse momento contra o julgo imperialista”, declarou.
Severo afirmou que o movimento seguirá mobilizado. “Nós, do Movimento Sem Terra, estaremos presentes em todos os atos e mobilizações que reafirmam a soberania e a independência dos povos. Depois de hoje, retomaremos as ruas no dia 8, num grande ato pela democracia, pelo direito à produção de alimentos e pela defesa dos bens naturais.”

Para a coordenadora-geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Niara Dy Luz, o ato foi uma resposta direta à intervenção dos Estados Unidos contra a Venezuela. “Para nós, da América Latina, isso é uma afronta, uma ameaça“, afirmou. Segundo ela, a escalada de esforço não é isolada e exige vigilância imposta permanente, lembrando as impostos ao Brasil há cerca de dois meses. “Isso significa que a gente precisa ficar em alerta. Defender a soberania da América Latina e de outros povos é fundamental. Não cabe ao Brasil, nem aos Estados Unidos, julgar um presidente. Quem deve fazer isso é o povo venezuelano”, defendeu.
Luz ressaltou que o debate sobre soberania ultrapassa fronteiras nacionais e envolve interesses geopolíticos mais amplos. “Assim como a justiça brasileira e o povo brasileiro devem resolver seus próprios problemas, para nós é sobre defender a América Latina como um todo. Estamos aqui do lado, já existe essa investida de Trump com interesse nas terras raras. O Brasil é o segundo país com mais terras raras do mundo, e isso precisa lançar um alerta para todo o mundo.”
Para ela, uma disputa envolve também o futuro do desenvolvimento nacional. “A gente precisa defender a nossa soberania e entender que não somos quintal do Norte Global para importar e exportar nossas riquezas. Eles devem servir para o desenvolvimento do nosso país, para a nossa soberania. Defender a educação e o desenvolvimento do Brasil é central nesse processo.”
O dirigente também denunciou repressão policial durante manifestação em Porto Alegre. Segundo ela, a ação da Brigada Militar foi violenta e injustificada. “Foi completamente truculento. Bateram em três pessoas, jogaram gás de pimenta em todos nós. Infelizmente, não é nenhuma novidade por parte da Brigada Militar, que tem um histórico de violência.”
De acordo com Luz, o ato segue de forma importadora até a intervenção. “As reivindicações eram super justas. No momento em que iniciamos o jogral, a nossa manifestação, apareceu um brigadiano com um fuzil na mão, apontando para as pessoas e jogando gás na nossa cara. Isso não pode ser naturalizado”, criticou, afirmando que a violência vivenciada no ato reflete uma realidade recorrente nas periferias de Porto Alegre.