Frei Sérgio e Paulo Freire: uma pedagogia libertadora – Brasil de Fato

Frei Sérgio e Paulo Freire: uma pedagogia libertadora – Brasil de Fato


N / D comemorou a passagem de Frei Sérgio em Daltro Filho várias vezes foram feitas menções sobre as semelhanças e as inspirações que ele buscava em Paulo Freire. Gostaria de enfatizar essas convergências profundas e estratégicas, pois elas podem muito nos ajudar e inspirar nossas lutas e projetos.

Numa carta que Freire escreveu a quatro jovens seminaristas, em 1977, após colocar no início do texto a citação do Evangelho de João, “Vós sereis meus amigos se fazerdes o que vos peço”, ele comenta: “Cristo é para mim o melhor exemplo de pedagogo”. E fundamental: “É impossível separar nele o que ele dizia, do que ele fazia”. E logo à frente: “Ele não dizia a verdade, era a verdade. Não ensinouva o caminho, era o caminho!” E comentamos a seguir que muitos de nós, educadores e até mesmo padres, arriscamos nos transformar em burocratas da palavra: somos os que mais conversamos, mas nossa fala é como um som que voa, um som oco; não é palavração, um termo que ele criou para expressar o que entendeu por práxis, a indissolubilidade entre o que se diz e o que se pratica!

Isso foi tão marcante em Freire que no último livro que estava escrevendo, Cartas Pedagógicasna última Carta, nas duas últimas linhas, ele escreveu: “…para que cada vez mais o que nós fazemos corresponda ao que nós dizemos”. Escreveu isso e nos deixou… Mas essa sua fala continua a nos perseguir em toda nossa caminhada em busca de justiça e fraternidade.

Vejamos agora nossa autenticidade e coragem Frei Sérgio. Não conheço ninguém, nos últimos tempos, que tenha colocado tanto, e tão profundamente em sua prática concreta, essa provocação de Freire:

– Ele não falou em Igreja em saída e encarnada. Saiu e foi morar nos acampamentos, nos assentamentos, nas ocupações. Foi morar no meio deles.

– Ele não falou em dar de comer a quem tem fome: fez greve de fome em solidariedade e defesa dos que têm fome e sede de justiça!

– Ele não dizia que deveria defender os perseguidos e oprimidos: ocupava a linha de frente, recebia as primeiras agressões, até físicas. Levou consigo a cicatrização duma coroada que recebeu em sua cara dum brigadiano, da qual se orgulhava: foi a única marca física que carregou até sua última morada!

– Ele não falou de suas convicções e fé: escreveu essas convicções em páginas de fogo, para que acalentassem e incendiassem os ânimos de quem está na luta.

Estou pensando em tudo isso e deixo esse desafio a cada um de nós: o único argumento que convence, e que não pode ser contestado, negado, é a prática!

* O livro Paulo Freire e…além: Desafios de uma pedagogia crítica, Porto Alegre: Evangraf, de 2024, já está na 8ª Edição.

** Padre, filósofo, sociólogo, pós-doutor em psicologia e ciências sociais e professor aposentado.

*** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expresso na linha editorial do jornal Brasil de Fato.


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