Expansão militar, paralisia orçamentária e crise com a China: o que está em jogo nas eleições de domingo no Japão – Brasil de Fato

Expansão militar, paralisia orçamentária e crise com a China: o que está em jogo nas eleições de domingo no Japão – Brasil de Fato


“Uma dissolução [da Câmara] impossibilitou a aprovação do orçamento e terá impactos negativos na economia”, afirma Arakaki Kunio, secretário-geral da organização “Chega de Guerra em Okinawa“. Em entrevista ao Brasil de Fato, Kunio analisou a medida tomada pela primeira-ministra Sanae Takaichi de dissolver a Câmara Baixa da Dieta (o parlamento japonês), em 23 de janeiro, no dia exato de abertura da sessão ordinária, para convocar eleições gerais antecipadas que ocorrerão já no próximo domingo (8).

A manobra de antecipar as eleições foi interpretada como um cálculo da administração Takaichi para capitalizar sua aprovação popular — que chega a 70% segundo pesquisas recentes —, antes que o desgaste político e as tensões geopolíticas regionais enfraqueçam sua base.

Ao dissolver a Câmara no primeiro dia da sessão ordinária, ela interrompeu a tramitação do orçamento nacional de 2026, priorizando a declaração do poder da coalizão governamental. O objetivo declarado é alcançar 233 cadeiras, o que representa a maioria simples na câmara de 465 assentos.

Caso a coalizão entre o Partido Liberal Democrático (PLD) e o Partido da Inovação do Japão (PIJ) não atinja a meta, Takaichi afirmou que renunciará. A aposta é considerada arriscada já que embora a primeira-ministra tenha uma alta popularidade, seu partido tem apenas 30% de aprovação.

Paralelamente às manobras eleitorais, Takaichi protagonizou uma das piores crises diplomáticas desde a retomada das relações sino-japonesas em 1972. Em 7 de novembro de 2025, ela declarou no parlamento que um ataque chinês a Taiwan representaria uma “situação de ameaça existencial” para o Japão. O termo é uma referência específica à Lei de Segurança de 2015, que autoriza intervenção militar japonesa sob a ideia de “autodefesa coletiva”.

Neste cenário, um escândalo começou a surgir: os vínculos de Takaichi e seu partido com a Igreja da Unificação, conhecida na América do Sul como “Seita Moon”.

Kunio explica que antecipar as eleições também foi uma maneira de evitar que o Parlamento debatesse um escândalo incipiente na administração Takaichi: sua relação financeira e política com este grupo religioso.

A Igreja da Unificação teve a dissolução ordenada pelo Tribunal Distrital de Tóquio em 25 de março de 2025, após investigação que acordos 170 vítimas de práticas coercitivas para fazer ações exorbitantes. O líder da seita, Sun Myung Moon, falecido em 2012, esteve na América do Sul nos anos 1980 em aliança com as ditaduras militares, graças a seu perfil marcado anti-comunista. Acumulou escândalos de corrupção, entre outros, por onde passou.

Nesta entrevista, Arakaki Kunio analisa o cenário político das eleições de domingo. Com trajetória no movimento pacifista do arquipélago ao sul do JapãoKunio explica como as promessas econômicas de Takaichi, como a de zerar temporariamente o imposto sobre alimentos, são usadas para desviar a atenção de um projeto de governo centrado na expansão militar recorde e no aprofundamento das tensões diplomáticas regionais.

Confira a entrevista na íntegra

Brasil de Fato: A primeira-ministra Sanae Takaichi dissolveu a Câmara dos Representantes no início da sessão ordinária da Dieta em 23 de janeiro. O que motivou essa estratégia?

Arakaki Kunio: Há um consenso quase unânime entre o público e a mídia de que se trata de uma escolha de dissolução por interesses pessoais, baseado no julgamento da primeira-ministra Takaichi de que pode vencer agora devido aos seus altos índices de aprovação. Ao dissolver a Câmara no mesmo dia em que a sessão ordinária da Dieta foi aberta, ela tornou impossível a deliberação e a aprovação do orçamento nacional de 2026. Existe uma visão compartilhada de isso que traz impactos negativos na vida dos cidadãos e na economia. Apesar disso, acredita-se que Takaichi está forçando a eleição devido a dois cálculos estratégicos: com índices de aprovação na casa dos 70%, o PLD acredita que pode garantir uma vitória esmagadora e, se a sessão da Dieta decisivasse, ela seria questionada sobre questões como o apoio eleitoral da Igreja da Unificação ao partido, o que faria sua popularidade despencar.

Como estão as perspectivas das alianças partidárias para estas eleições?

O apoio ao PLD como partido estagnou em 30%. Surge a visão de que, mesmo com a popularidade de Takaichi, o PLD sozinho não consegue votos. Além disso, como o partido Komeito, que historicamente garantia votos organizados ao governo, deixou uma coalizão para formar um novo partido com o Partido Democrático Constitucional (PDC), surgiu a possibilidade de que essa nova “Aliança de Reforma Centrista” conquistasse uma grande vitória, resultando em uma troca de governo e na derrota da administração Takaichi. O debate sobre se um primeiro-ministro pode dissolver a Câmara de forma tão arbitrária também está crescendo. O jornal Ryukyu Shimpo publicou um artigo afirmando que não há disposição na Constituição que conceda ao primeiro-ministro o direito de dissolução.

Takaichi planejou zerar temporariamente o imposto sobre o consumo de alimentos por dois anos. As pessoas no Japão viram isso apenas como uma estratégia para atrair votos. O que o senhor acha?

Os partidos de oposição têm defendido a redução da taxa de imposto sobre o consumo e do imposto zero sobre alimentos. Por isso, o primeiro-ministro Takaichi anunciou repentinamente que iria considerar a medida. O objetivo de angar votos é óbvio. Como há oposição dentro do próprio PLD, o termo “considerar” é apenas uma promessa verbal. A proposta de Takaichi já provocou movimentos de desvalorização do iene e aumento das taxas de juros dos títulos públicos, levando à previsão de que a proposta será retirada assim que a eleição terminar.

No projeto de orçamento para 2026 apresentado pelo governo, os gastos militares foram estabelecidos em um registro de mais de 9 trilhões de ienes. Como você avalia essas prioridades?

Desde a administração de Shinzo Abe, os governos do PLD seguiram uma rota de superpotência militar. Os gastos militares saltaram de 5,3 trilhões de ienes em 2021 para o registro de aproximadamente 9 trilhões em 2026. Enquanto o aumento da China foi de cerca de 7% em relação ao ano anterior, o Japão continua uma expansão armamentista de 20%. O orçamento de 2026 é essencialmente um orçamento de preparação para a guerra, destinando cerca de 1 trilhão para missões de longo alcance e 310 bilhões para drones e veículos não tripulados.

Com foco no fortalecimento da defesa das Ilhas Nansei, incluindo Okinawao orçamento prevê elevar o contingente e os equipamentos, transformando a região na linha de frente de uma guerra potencial com a China por conta de Taiwan. Os EUA impediram que o Japão gaste 3,5% do seu PIB em defesa, e a previsão é de aumentos ainda maiores a partir de 2027. Teme-se que os gastos cheguem a 20 trilhões de ienes, o que tornaria o colapso das finanças nacionais. Cidadãos de Okinawa e de todo o país estão protestando contra esse orçamento armamentista do governo Takaichi.


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