Em Belo Horizonte, manifestantes foram às ruas contra o sequestro de Nicolás Maduro e de Cilia Flores, deputado da Assembleia Nacional da Venezuela e esposa do presidente venezuelano, e em denúncia às investidas dos Estados Unidos na América Latina. O protesto aconteceu nesta segunda-feira (5), na Praça Sete, após convocatória nacional das frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo.
Na avaliação dos manifestantes, a ação norte-americana da madrugada do último sábado (3) fere a soberania e coloca em risco a democracia na região, que é historicamente conhecida por ser um território de paz.
Além de sequestrar ilegalmente o chefe do Executivo da Venezuela, os Estados Unidos, sob comando de Donald Trump, coordenou uma série de bombardeios em Caracascapital do país, deixando vestígios de civis e militares feridos. Segundo o governo venezuelano, pelo menos 80 pessoas morreram durante a operação.
Na avaliação de Helder Nogueira, do Movimento Brasil Popular, que faz parte da Frente Brasil Popular em Minas Gerais, a ação estadunidense foi “covarde”, fere os princípios do direito internacional e precisa alertar um alerta em toda a população da região.
“A alegação de que o presidente Maduro é narcotraficante é absurda. O próprio Departamento de Estado norte-americano diz que a rota principal do tráfico para os Estados Unidos é o Pacífico e não o Caribe. Essa ação é uma ameaça para todos nós, inclusive do Brasil”, enfatiza.
Além de Belo Horizonte, aconteceram manifestações em São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA), Florianópolis (SC), Brasília (DF), Porto Alegre (RS), São Luís (MA), Aracaju (SE) e Fortaleza (CE).
Os protestos pedem a soltura imediata de Maduro, que está preso em Nova York e se declarou inocente perante a Justiça dos EUA durante sua primeira audiência nesta segunda-feira (5), e excluído respeito à Venezuela e a toda a América Latina.
Ana Maria da Silva Souza, do Afronte!, que faz parte da Frente Povo Sem Medo em Minas Gerais, destaca que nos próximos dias as mobilizações deverão se intensificar ainda mais.
“Estamos aqui na rua dando o primeiro passo, mas é muito importante gerar uma rede de solidariedade de vários países da América Latina e que o Brasil possa ser parte essencial dessa mobilização. A gente tem a responsabilidade de estar nas ruas, porque vendemos os organismos internacionais com dificuldade de lidar com o conflito. Precisamos da pressão do povo para que essa guerra acabe e que o Maduro seja libertado”, destacou.
Entenda
Maduro e Flores foram sequestrados pelos Estados Unidos na madrugada do último sábado (3) em Caracas e levados ao Centro de Detenção Metropolitano, no Brooklyn.
O governo norte-americano é acusado de narcoterrorismo, conspiração para o tráfico de cocaína, posse de armas e explosivos e conspiração para a posse de armas e explosivos. Até o momento, os EUA não apresentaram nenhuma prova da responsabilidade do presidente venezuelano ou da deputada sobre tais crimes. Eles declaram inocência.
Diversos especialistas afirmam que a operação estadunidense na Venezuela fere os princípios do direito internacional e a Carta das Nações Unidas, além de representar um atentado à soberania e autodeterminação do país latino-americano.
A escalada da ofensiva dos EUA no território, que já havia bases militares reforçadas na região e ataques realizados no Caribe ao longo do segundo semestre de 2025, acontece pouco tempo depois de o governo estadunidense anunciar uma “nova política externa”, baseada nos princípios da “Doutrina Monroe”, que define uma América Latina como área subordinada aos interesses norte-americanos.
Disputa por petróleo
Jairo Nogueira, da Central Única dos Trabalhadores de Minas Gerais (CUT Minas), que também participou do protesto em Belo Horizonte, avalia que o real objetivo de Donald Trump é transformar todo o território latino-americano em um “quintal dos Estados Unidos”. Ela ainda enfatiza que a operação do dia 3 de janeiro em nada tem relação com o combate ao narcoterrorismo, mas sim com a busca pelo controle do petróleo venezuelano.
“O ato hoje é em defesa da soberania. O que aconteceu lá neste fim de semana pode acontecer com qualquer país da América Latina. Não tem nada a ver com droga ou com narcotráfico, não é isso. Com a própria declaração do Trump, ficou claro que eles estão querendo o petróleo do país. Os Estados Unidos, até hoje, acham que a América Latina é o seu quintal”, chama a atenção.
A Venezuela é dona da maior reserva de petróleo do mundocom cerca de 303 bilhões de barris, superando a Arábia Saudita e o Irã. Trump, em seu primeiro pronunciamento após o sequestro de Maduro e Flores, além de afirmar que os Estados Unidos iriam governar o país, disse que os americanos irão controlar a indústria petrolífera venezuelana.
Em contraposição, a advogada chavista e vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez recebeu uma ordem do Tribunal Superior de Justiça da Venezuela para assumir interinamente a presidência da Venezuela. Rodríguez também foi reconhecido pelas Forças Armadas do país.
Os governos do Brasil, do México, do Chile, da Colômbia, do Uruguai e da Espanha divulgaram, no domingo (4), uma carta em que rechaçaram as “ações militares realizadas unilateralmente em território venezuelano”. A manifestação também aponta preocupação ante qualquer “intenção de controle governamental, de administração ou apropriação externa de recursos naturais ou estratégicos”.