EUO seu passado tumultuado, marcado por massacres, escravatura, dominação violenta, golpes de Estado, revoluções e revoltas, muitas vezes ofusca outra narrativa da América Latina: a de uma região vibrante e culturalmente rica, onde a arte, a criatividade e a solidariedade ocupam um lugar central na sociedade.
Ao longo de sua história pós-colombiana – o período após a chegada de Cristóvão Colombo ao Américas em 1492 – a América Latina enfrentou a tensão entre a subjugação às potências coloniais e imperiais, a resistência e a busca pela independência.
Esta história mais profunda e sofisticada – menos definida pela crise institucional – encontra agora expressão visual em História da América Latina em 100 Fotografias (História da América Latina em 100 Fotografias), o mais recente trabalho de Paulo Antonio Paranaguá.
Nascido no Rio de Janeiro em 1948, o jornalista e historiador usa as imagens como fios que entrelaçam uma narrativa transnacional do continente.
Filho de um diplomata, Paranaguá cresceu em Buenos Aires e Madrid, aprendendo espanhol antes de português e absorvendo as primeiras lições sobre como desafiar a ditadura. Quando adolescente, sob o comando do general Franco, leu jornais clandestinos de republicanos exilados em Tânger.
De volta ao Brasil, ele começou a estudar ciências sociais antes de se mudar para Leuven, na Bélgica, e finalmente para Paris, em 1968, atraído por seu fermento intelectual radical. Na Universidade de Nanterre, ele cruzou com Daniel Cohn-Bendit e o futuro presidente brasileiro Fernando Henrique Cardosojuntando-se aos protestos de maio de 1968 que moldaram seu ativismo posterior em um grupo trotskista, a Quarta Internacional.
Essa militância levou Paranaguá de volta à América Latina, onde em 1975 foi preso por dois anos pela ditadura argentina. Privado do seu passaporte pelo regime militar do Brasil, ele escapou com a ajuda de seus contatos franceses, ganhando o status de refugiado e retornando para casa somente após a anistia do Brasil em 1979.
Paranaguá começou como fotógrafo em 1968, depois ingressou no Jornal do Brasil como correspondente em Paris, depois trabalhou na Radio France Internationale e finalmente no Le Monde como editor para América Latina e Caribe.
Ao lado do jornalismo, tornou-se um importante estudioso do cinema latino-americano, publicando Cinema na América Latina: Longe de Deus e Perto de Hollywood em 1985 e editando volumes sobre a história cultural da região.
Em 2017, foi coautor História do Brasil em 100 Fotografias. Para este novo livro, ele trabalhou sozinho. “Aprecio o trabalho coletivo”, diz ele, “mas para contar a história da América Latina, precisava de mais controle”.
Rejetando narrativas nacionais, Paranaguá constrói uma história global conectada da região, abrangendo os povos indígenas, a colonização, a escravidão e a migração – até mesmo o Caribe não latino, do Suriname holandês ao Belize britânico.
“As histórias nacionais, mesmo as de países pequenos, são inadequadas para explicar a evolução da América Latina”, diz ele. “A história conectada e global desafia o velho paradigma.”
A fotografia, diz ele, expande a história para além da política. “Queria desenvolver, ao lado da história política, a história cultural, social e antropológica da América Latina – toda a criatividade que definisse a sua identidade.”
Com base nas descobertas arqueológicas, Paranaguá revisita as civilizações olmeca, asteca, inca e guarani e os arqueólogos dos séculos XIX e XX que ajudaram a forjar imagens nacionais no México e Peru.
Ele também evita clichês: a Revolução Mexicana é vista através de imagens de mulheres soldados, em vez dos habituais retratos de Vila Pancho ou Zapata; o Ditadura de Trujillo na República Dominicana é retratado através das irmãs Mirabal assassinadas, e não do próprio ‘Generalísimo’.
Ao lado das grandes convulsões – guerras, revoluções, ditaduras – aparecem temas periféricos mas reveladores. Frida Kahlo posa para fotógrafos americanos, criando sua personalidade internacional; Wifredo Lam liga o surrealismo à cultura afro-cubana. O Guerra do Chaco (1932‑35) é documentado pelo fotógrafo alemão Willi Ruge em cenas de trincheiras que ecoam as da Primeira Guerra Mundial.
O verdadeiro tesouro do livro está no arquivo de Paranaguá. A foto de Che Guevara, depois de o corpo do revolucionário argentino ter sido exposto em Vallegrande, na Bolívia, aqui reproduzida veio de Buenos Aires, não da Bolívia. “Alguns arquivos foram digitalizados, mas a maioria permanece em condições irregulares”, diz ele.
Suas imagens conectam o passado da América Latina ao seu presente, revelando como as ideias fascistas, a desigualdade e a violência perduram. Um comício nazista em 1938 celebrando o Anschluss no Luna Park, em Buenos Aires, repleto de suásticas, reflete o ressurgimento da extrema direita em toda a região.
“Esses momentos nos ajudam a entender o presente”, diz Paranaguá. “Os movimentos de extrema direita de hoje não são inéditos – eles ecoam o nosso passado.”
A independência nacional, argumenta ele, não libertou os latino-americanos das elites entrincheiradas. “No coração das sociedades latino-americanas, a exclusão é a regra”, afirma.
Os interesses de classe e empresariais continuam interligados com potências estrangeiras – acima de tudo, os Estados Unidos. “A regressão política que estamos a assistir não nos leva de volta ao século XX, mas ao século XIX, quando os EUA procuravam a expansão territorial”, acrescenta.
Os legados da escravidão e da conquista ainda moldam a região. Em Brasila violência da colonização persiste na brutalidade estatal e na desigualdade urbana.
Em todo o continente, Paranaguá afirma: “Um assassinato é uma bomba coletiva: traumatiza famílias, comunidades e jovens negros, com impunidade e impacto económico devastador”.
Numa era de imagens geradas por IA, Paranaguá valoriza a fotografia histórica pela sua autenticidade. “Uma fotografia, como uma carta ou um documento, não é a verdade absoluta, mas sim uma prova”, diz ele. “Precisaremos de critérios cada vez mais rígidos para analisar a origem das imagens.”
Em seu último trabalho, Paranaguá retrata uma América Latina instável, mas vibrante, brutal, mas criativa – um mosaico de tragédias e esperanças de um futuro mais justo. Longe de um quintal imóvel.