Pontos-chave
- O Brasil está tentando transformar o poder bruto da computação em alavancagem nacional em IA, ciência e serviços públicos.
- O plano combina grande hardware, uma estratégia de IA centrada em Portugal e um controlo mais rigoroso sobre fluxos de trabalho de dados sensíveis.
- O verdadeiro teste é a execução: disciplina de aquisição, competências e salvaguardas de privacidade em que os estrangeiros confiarão.
A próxima grande aposta de soberania do Brasil não é um novo campo petrolífero ou um avião de combate. É uma sala de máquinas.
Em Brasília, o Ministério da Ciência está promovendo uma nova aquisição de supercomputadores este ano, coordenada pelo Laboratório Nacional de Computação Científica, LNCCcomo parte do Plano Brasileiro de IA lançado em 2024.
A ambição é impressionante: construir capacidade forte o suficiente para colocar o Brasil entre os cinco primeiros do mundo em computação de alto desempenho. Por trás da manchete está uma história mais antiga.
O Brasil já possui infraestrutura séria. LNCC opera o Santos Dumont supercomputadorum carro-chefe de pesquisa que apareceu na lista global TOP500 e foi atualizado ao longo do tempo.


Enquanto isso, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, INPE, colocou online um sistema mais novo, o Jaci, que visa expandir a capacidade nacional de modelagem e monitoramento, incluindo simulações de alta resolução.
Brasil aposta em infraestrutura soberana de IA
A proposta agora é escala e integração: passar de bolsões de capacidade para uma plataforma que possa mudar a forma como o estado e a indústria operam.
É aí que chega a política dos dados. As autoridades dizem que o novo supercomputador ajudaria a conectar os principais conjuntos de dados governamentais, incluindo benefícios sociais, habitação, matrículas escolares e partes do sistema judicial.
Em termos simples, o Estado pretende reduzir atrasos, detectar fraudes mais rapidamente e tomar decisões políticas com evidências mais fiáveis.
A mesma infra-estrutura também está a ser vendida como uma ferramenta industrial, forçando o investimento em engenheiros de hardware e criadores de software, em vez de terceirizar a capacidade principal.
Há um segundo enredo: linguagem e identidade na IA. Brasília quer um grande modelo linguístico formado com perspectiva brasileira e em português, apresentado como forma de reduzir a dependência de modelos estrangeiros e de restrições estrangeiras.
Esse objetivo está diretamente ligado à política industrial, com o BNDES e a Finep posicionados como principais canais de financiamento no âmbito da agenda de reindustrialização da “Nova Indústria Brasil”.
O ângulo internacional é difícil de ignorar. O Brasil e a China estão avançando no CBERS-5, descrito como o primeiro satélite geoestacionário do Brasil, para alimentar uma observação mais contínua nos sistemas nacionais.
Ao mesmo tempo, o Brasil está financiando o retorno de talentos, orçando R$ 1 bilhão (US$ 185 milhões) ao longo de cinco anos para trazer pesquisadores para casa.
Se isso funcionar, o Brasil ganhará autonomia estratégica em um mundo onde computação é poder. Se falhar, torna-se um símbolo caro.