O ex-presidente apoiado por Trump parece destinado à prisão.
O Jair Bolsonaro que compareceu ao tribunal estava muito longe da personalidade pública agressiva e grosseira com a qual o público brasileiro se acostumou nos últimos 40 anos. No depoimento, ele fez o possível para parecer humilde e charmoso. Em suma, ele não ameaçou mate qualquer comunista,falar sobre estuprar alguémou ridicularizar pessoas que morrem de insuficiência respiratória. Também não fez quaisquer alegações espúrias de corrupção contra os cinco membros do Primeiro Painel do Supremo Tribunal, que estão a decidir sobre o julgamento.
Durante três horas de interrogatório feito pelo ministro Alexandre de Moraes, pelo ministro Luis Fux e pelo procurador-geral Paulo Gonet, ele negou ter alguma vez conspirado contra o Estado democrático de direito, minimizou as acusações contra ele e aproveitou todas as oportunidades para promover seus quatro anos na presidência. Ele recebeu crédito por iniciativas como o projeto de irrigação do Rio São Francisco – que foi 90% concluído quando ele assumiu o cargo—e atribuiu a queda na taxa de criminalidade durante o seu mandato (que corresponde quase perfeitamente ao período de quarentena durante a pandemia da COVID-19) à desregulamentação da posse de armas.
Ele jogou os manifestantes do Capitólio de 8 de janeiro debaixo do ônibus, espalhando desinformação sobre sua ligação com o campo de protesto que pedia uma intervenção militar montada em frente à base militar de Brasília. Ele alegou que, embora insistisse que o golpe militar de 1964 não foi realmente um golpe, ele não tinha ideia do que era o Ato Institucional 5 – que fechou o Congresso e o Senado do Brasil em 1968. “Tem os lunáticos que se apegam a essa ideia de um AI-5, de intervenção militar das Forças Armadas… mas os dirigentes das Forças Armadas nunca concordariam com isso só porque as pessoas estavam pedindo.”

Quando questionado sobre a razão pela qual afirmou repetidamente e publicamente que o sistema de votação electrónica era susceptível de fraude sem fornecer qualquer prova, em vez de responder, lançou mais uma tentativa de lançar dúvidas sobre o sistema de votação electrónica. Quando lhe perguntaram se tinha alguma prova da sua afirmação, amplamente divulgada nas redes sociais, de que os ministros do Supremo Tribunal receberam 30-50 milhões de dólares em subornos, ele fingiu um sorriso tímido, disse que esses comentários foram feitos no calor do momento e pediu desculpa, dizendo: “Não tenho qualquer prova disso, Ministro”.
Quando questionado se tinha partilhado planos com altos escalões militares sobre provocar um estado de sítio para que o exército pudesse assumir a segurança nacional e prender Lula e ministros do Supremo Tribunal, admitiu que tinham discutido o assunto — alegando que estava deprimido depois de perder as eleições, e que falaram sobre todos os tipos de possibilidades, mas esta ideia foi rapidamente rejeitada.
O momento mais surreal de seu depoimento de três horas foi quando perguntou ao ministro Moraes se poderia contar uma piada. “Se eu fosse você, consultaria seus advogados sobre isso”, respondeu Moraes.
“Gostaria de convidá-lo para ser meu companheiro de chapa à vice-presidência em 2026”, disse ele, enquanto algumas risadas aumentavam na plateia.
“Oferta recusada”, respondeu Moraes.
Este convite enfureceu muitos dos apoiadores de Bolsonaro. Afinal, os aliados de Bolsonaro na extrema direita internacional passaram os últimos cinco anos enquadrando Moraes como um supervilão ao estilo Bond.
Durante dois dias de depoimentos dos oito réus acusados de serem o “núcleo central” de um processo de tentativa de golpe de Estado de dois anos – que incluiu conspiração para assassinar Lula da Silva, Geraldo Alckmin e o ministro Moraes – o comportamento educado e modesto parecia ser um plano conjunto. Referindo-se ao fato de que a maioria dos réus eram membros antigos ou atuais da facção neofascista “Tigradas” dentro das forças armadas brasileiras (que nunca se reconciliou com o fim da ditadura militar em 1985), o analista jurídico Arnóbio Rocha disse“Os grandes tigres, as tropas de Bolsonaro, viraram gatinhos no Supremo”.
Imediatamente após sair do julgamento, Bolsonaro abandonou sua rotina de “gatinho” e atacou agressivamente o Supremo nas redes sociais, twittando: “Hoje ponho fim a duas narrativas absurdas que nunca deveriam ter existido. A primeira é essa farsa chamada ‘projeto golpista’. Nunca discuti nenhum documento com conteúdo golpista. Também nunca participei ou autorizei qualquer conversa sobre a prisão de autoridades. Isso simplesmente nunca aconteceu. É uma mentira infundada inventada para justificar a perseguição política contra mim e contra aqueles que me apoiam.”
No entanto, a grande maioria dos juristas citados nos meios de comunicação discordou, tendo a maioria afirmado que o antigo presidente se tinha incriminado, complicando ainda mais o seu caso.
Um exemplo dado foi sua estratégia de defesa de alegar que, por não terem agido de acordo com o plano detalhado para um golpe militar – vários exemplares do qual foram apreendidos pela Polícia Federal – nenhum crime foi cometido. A ideia de que estes actos “preparatórios” não constituíam um crime foi amplamente criticada, mesmo no seio conservador Estado de S.Paulo jornal, que tem um longo histórico de apoio aos Bolsonaros. Citou Aury Lopes Jr., professor de direito penal da PUC-PR, explicando que a distinção entre atos preparatórios e atos executivos é central no direito penal. A questão de saber se eles agiram ou não na conspiração golpista é juridicamente relevante, explicou ele, porque planejar um golpe de estado é um crime em si no Brasil. “A questão dos atos preparatórios já foi superada”, disse Crespo. “As evidências mostram que havia algo além disso.”
O que vem a seguir?
Agora que os arguidos terminaram os seus depoimentos, o julgamento está entrando em sua reta final. Um curto prazo será agora estabelecido pelo Tribunal para que tanto os procuradores como a defesa solicitem medidas investigativas adicionais com base nas informações recolhidas durante a fase probatória do julgamento. No Brasil, isso geralmente se refere a atividades como interrogatório de uma testemunha ou obtenção de documentos referenciados durante os dois dias de depoimento. O Ministro Presidente Alexandre de Moraes decidirá pela aceitação ou rejeição de cada pedido. Nesse momento, a testemunha-chave, o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de campo de Jair Bolsonaro, fará sua declaração final. A partir deste momento, os arguidos terão um prazo de 15 dias para desenvolver e apresentar as suas alegações finais ao tribunal. Nesse momento, o painel de cinco ministros – Alexandre de Moraes, Carmen Lúcia, Luis Fux, Cristiano Zanin e Flávio Dino – emitirá sua decisão, com as condenações exigindo uma maioria de três votos.
Isto apareceu pela primeira vez em Desvinculando o Brasil.
