Mais de 12 mil hectares já foram consumidos pelo fogo em áreas de floresta, pastagens, propriedades rurais e infraestrutura na Patagônia argentina. O incêndio começou há mais de uma semana na região de Puerto Patriada, em Chubut, e segue ativo, atingindo também as localidades de El Hoyo e Epuyén. O avanço das chamas é impulsionado pelas altas temperaturas, ventos intensos e ausência de chuvas – o que levou ao bloqueio de trechos da Rota Nacional 40 e à adoção de medidas de emergência.
Diante da devastação do pior desastre ambiental nos últimos 20 anos na regiãoo governo do presidente Javier Milei e aliados locais, como o governador Ignacio Torres, da província de Chubut, fizeram um manifesto público de que as comunidades mapuche estariam envolvidas em ações criminosas ligadas a incêndios.
Em nota oficial, o Ministério da Segurança, comandado por Patricia Bullrich, afirmou que os focos poderiam estar relacionados à ação de “grupos violentos” e prometeu “investigar possíveis vínculos com organizações extremistas”. A acusação, no entanto, foi rebatida pelo fiscal Álvaro Yañez, que afirmou à imprensa local não haver qualquer acusação de que relacione os povos originários ao início dos incêndios.
Organizações populares e lideranças indígenas denunciam que a ofensiva faz parte de um projeto mais amplo de despojo territorial. O objetivo, segundo denuncia, seria fragilizar a presença dos povos originários em regiões estratégicas, onde avançam interesses ligados à mineração, ao fracking de petróleo e gás, à especulação fundiária e à privatização de recursos naturais como a água.
Em meio à destruição ambiental e à repressão, comunidades mapuche têm atuação na linha de frente do combate ao fogo. Além de ajudar a conter as chamas, são também responsáveis por organizar redes de apoio e assistência às famílias atingidas, enquanto enfrentam o racismo, a violência institucional e a estigmatização nos discursos oficiais.
“O que estamos vendendo é uma tentativa de apagar não só a floresta, mas também a nossa forma de vida”, denuncia a liderança mapuche Moira Millán, uma das principais vozes da resistência na região, moradora da comunidade Pillañ Mawiza. “Não podemos permitir que avance tanta morte. Vamos seguir defendendo a vida de todas as maneiras possíveis.”
Criminalização e ofensiva sobre os povos originários
Enquanto brigadistas e moradores lutam para conter as chamas, mesmo sem tentativas o governo de Javier Milei e o governador de Chubut, Ignacio “Nacho” Torres, passaram a responsabilizar grupos comprovados ligados aos povos originários. Mesmo já tendo sido desmentidos pelas autoridades locais, as declarações alimentaram o processo de estigmatização do povo originário que habita a região há milhares de anos e que há décadas protagoniza a resistência à exploração econômica da Patagônia.
Apesar da ausência de provas, a retórica punitivista tem servido de justificativa para operações policiais e ações judiciais contra comunidades indígenas na região. “Duas comunidades perderam tudo. Animais, casas, tudo virou cinza. E mesmo assim, em vez de apoio, o que recebe é repressão. Ontem uma delas sofreu uma operação policial ordenada pela Justiça”, contou a ativista mapuche Moira Millán. Ela se refere à comunidade Pulgar Huentuquidel, uma das afetadas diretamente pelo fogo e, em seguida, alvo de uma operação judicial com apreensão de celulares e documentos.
“Há racismo, perseguição e propaganda racista. O governo quer apagar nossa presença da Patagônia para abrir caminho a um modelo econômico baseado na exploração”, disse em entrevista ao Brasil de Fato.
Para os povos origináriosa devastação tem um significado que vai além da perda material. “São territórios que nosso povo preserva há milhares de anos. Nossas formas de vida, espiritualidade e alimentação se constroem a partir da relação com essas florestas. A dor é imensa”, afirmou Millán.

Resistência e solidariedade em meio às chamas
Na contramão das acusações, as comunidades mapuche e os moradores da região têm sido protagonistas no combate ao fogo. Sem estrutura suficiente por parte do Estado – que corta moderadamente os recursos para prevenção e combate a incêndios – são vizinhos, brigadistas voluntários e integrantes de povos originários que formam redes de solidariedade para salvar casas, animais e reservas naturais.
Desde 2024, o governo de Javier Milei tem promovido cortes nos fundos previstos na lei para os voluntários e para o sistema de monitoramento e alertas. O orçamento aprovado para este ano prevê um corte de aproximadamente 69% nos recursos ambientais em relação a 2023 e de 53,6% em comparação com 2025, segundo estudos do Centro de Economia Política Argentina (CEPA).
“Quem está apagando o fogo somos nós”, resume o eletricista Adrián de Gracia, morador da zona rural de El Bolsón, que perdeu sua própria casa num incêndio em 2025, mas segue participando como brigadista voluntário. Agora a casa de amigos onde está morando também está ameaçada pelas chamas.
“Somos ajudando vizinhos. Os mapuche estão sempre nos lugares mais distantes, onde o fogo chega primeiro. Estão salvando os territórios com as próprias mãos”, contornou Adrián.
Segundo ele, a acusação contra os povos originários é insustentável. “Estão perdendo tudo também. Não têm nada a ganhar com isso. Já culparam até brigadistas no passado. Sempre procurem uma desculpa para não investigar as verdadeiras causas”, afirmou.

Pressão econômica e disputa territorial
Para Moira Millán, a criminalização dos povos originários serve a um objetivo claro: abrir caminho para um novo ciclo de espoliação da Patagônia. “Estão tentando apagar a vida para plantar a morte”, afirma. Segundo ela, os incêndios fazem parte de um projeto que combina destruição ambiental, repressão e flexibilização de leis para facilitar a venda de terrenos.
No território argentino, a Patagônia aparece como uma fronteira estratégica do extrativismo, cobiçada por projetos de mineração, energia e grandes empreendimentos, em um cenário no qual o Estado reduz sua capacidade de regulação, fiscalização e resposta a desastres ambientais.
E, de 2023, por decreto, Javier Milei revogou a Lei de Terras de 2011, eliminando limites à propriedade rural por estrangeiros. O caso foi parar na Justiça, que suspendeu preventivamente o decreto, mas ainda não tomou decisão definitiva. A Lei de Bosques Nativos, instrumento jurídico semelhante ao Código Florestal no Brasil, permanece em vigor, mas teve sua aplicação comprometida com o desfinanciamento de mecanismos centrais de conservação. Recentemente, o colocou em tramitação no Congresso uma proposta de reforma da Lei dos Glaciares, que, se aprovada, pode reduzir áreas protegidas e ampliar a margem para atividades extrativas em ambientes glaciais e periglaciais — muitos deles localizados justamente na Patagônia.
“Querem que não haja mais nenhum mapuche na Patagônia, e encontre eco em setores racistas e supremacistas que precisam acreditar nessa narrativa”, denuncia Millán.
Levantamento do jornalista Alejandro Pairone, do El Tiempo Argentino, revela que apenas quatro grupos estrangeiros – com capitais do Catar, Emirados Árabes, Bélgica e Reino Unido – já concentram cerca de 110 mil hectares entre Bariloche e El Bolsón, o equivalente a quase seis vezes na área da cidade de Buenos Aires.
Esses conglomerados controlam praias, montanhas, florestas nativas, rios e glaciares. Em meio à paisagem preservada, instalaram centros de esqui exclusivos, pousadas de luxo, cotos de caça e mansões com acesso restrito. Boa parte desses terrenos foi adquirida por meio de testamentos de ferro, triangulações e fideicomissos, numa lógica de ocultamento da titularidade real.
Em alguns casos, os empreendimentos invadem territórios reconhecidos judicialmente como ancestrais de comunidades mapuche, como Cayunao e Kom Kiñé Mu. Uma dessas áreas foi transformada em um coto de caça de luxo que hoje não é centro de um litígio judicial. “A criminalização dos mapuche ocorre justamente onde há projetos de urbanização de elite e especulação fundiária”, aponta o jornalista, em entrevista ao Brasil de Fato.
“A construção do inimigo interno é deliberada. Primeiro lançam discursos vagos, depois colocam nome: ‘os mapuche’. E, por fim, vêm as ações policiais. Isso é parte de um projeto mais amplo que busca erradicar toda forma de organização social que resiste ao modelo de reconversão econômica imposta pelas grandes capitais”, analisa.
De acordo com Pairone, os territórios da cordilheira patagônica são hoje alvo de disputas intensas: de um lado, comunidades e organizações populares que buscam preservar a biodiversidade; do outro, megaprojetos de mineração, fracking e turismo de luxo que avançam com apoio de governos provinciais e do Executivo nacional.

“Nunca mais será como antes”
Mais do que casas e florestas, os incêndios destroem territórios sagrados. Para o povo mapuche, a ligação com a terra é espiritual, profunda e milenar. “Lá buscávamos nossos gramadouma medicina que sustenta a saúde física e espiritual. Hoje, tudo isso foi arrasado”, lamenta Millán. Segundo ela, a devastação não é só ambiental: é também cultural, simbólica e civilizatória.
O Parque Nacional Los Alerces, uma das áreas atingidas, abriga alerces milenares e vegetação considerada patrimônio da humanidade pela Unesco. “Nunca mais vai voltar a ser o que foi”, diz Millán. A recuperação dos ecossistemas, mesmo que parcial, deverá levar séculos. “Só conseguiremos regenerar se tivermos o direito de viver em nossos territórios e se acabarmos com esse modelo de governo que promove o terricídio.”
Apesar da dor e das perdas, Millán insiste que os povos originários sigam firmes na defesa da vida. “Não temos medo do fascismo argentino ou chileno. Temos medo de não cumprir o mandato dos nossos ancestrais: proteger o território.” E faz um apelo à solidariedade internacional: “A Patagônia é tão importante quanto a Amazônia. Um atentado contra ela é um atentado contra toda a humanidade.”