No Benin, o culto a Egungun atravessa gerações e segue como um dos pilares da identidade iorubá em diversas comunidades. Entre os membros da família Iloko Arelu, o canto sagrado é entoado em coro, inclusive pelas crianças. É uma forma de reafirmar a ligação da comunidade com Iyanda-Ogou, o ancestral que trouxe a felicidade Egungun de Oyó, na Nigéria, para Sakété, não, Benim. Ali, a vida cotidiana se entrelaça com a espiritualidade. O chefe da divisão, Osseni Kolade, explica a religião dos antepassados.
“O cristianismo e a islã chegaram recentemente, com a colonização e a escravidão. Mas a felicidade Egungun já existia antes. Aquele que dedica tempo para cuidar bem da divindade Egungun, que permanece fiel a essa religião e não mistura outras práticas, faz com que a família viva em paz. Ele mesmo estará em paz, os filhos ficarão bem, e a família permanecerá em harmonia. Quem para fora poderá voltar com saúde, e as atividades irão prosperar. Enquanto você for fiel à intuição Egungun, sem mistura e sem oferecer o que ela não aceita, tudo correrá bem para você, e a paz reinará na família, na comunidade, na aldeia e no país”, coloca Kolade.
Em Sakété, são reconhecidas 16 divindades iorubanas, entre elas Obatalá, Xangô, OgumOro e Oyá. A grande festa do Egungun, porém, é a única celebrada a cada três anos, pois é a mais custosa e exige longa preparação. A próxima está prevista para março de 2026. A privacidade dos Eguns é um dos pontos mais importantes da vida espiritual da comunidade e envolve rituais preservados com rigor.
A família Iloko Arelu, guardiã da divindade em Sakété, é responsável pela confecção das roupas e pela preparação das danças que permitirão sua manifestação. Instalada em Itabalè, nome que remete a Ita-Baalè, “o pátio de Baalè”, título dado ao chefe dos Egungun, a família mantém viva essa herança.

“Sakété é como a base da religião Egungun aqui no Benim, e a maior parte dos orixás está aqui em Sakété. O que eu gostaria de dizer é dirigido aos afrodescendentes, porque talvez eles não saibam exatamente de onde vieram, se do Benim, da Nigéria ou de outro país. Mas peço que não esqueçam suas raízes. Que retornem, que venham ao Benim, que venham a Sakété, quem do festival”, reforça o chefe da família.
O nascimento de um Oje
Na tradição iorubá, o Egungun é a morte que retorna de forma espiritual e visível. Quem dá corpo aos ancestrais são os Ojes, homens iniciados responsáveis por incorporar os eguns usando roupas sagradas. Eles conduzem o ixan, basta que abre caminho para o renascimento do ancestral diante da comunidade. O jovem Abiodoun Adechian explica como essa herança se mantém viva:
“Quando uma criança nasce no hospital e pertence a uma família como a nossa, já há um sinal que se percebe ali mesmo. Às vezes, ela nasce com um bastão na mão, que permanece com ela. Nesse caso, entende-se que se trata de um Amouchan, aquele que guarda o bastão do Egungun. Para o Oje, surge algum sinal no rosto ou em outra parte do corpo que indica que ele é Oje. Na nossa família, se isso acontece e não tomamos as providências para realizar as cerimônias de iniciação da criança, ela terá problemas ao longo da vida. Só quando faz os rituais é que ela alcança a paz”, explica.

Ele segue: “Foram os nossos ancestrais que trouxeram a divindade Egungun para cá, para Sakété, desde Oyó, na Nigéria. Somos, portanto, descendentes de Oyó. Antes de morrer, nossos ancestrais dedicaram tempo para explicar à jovem geração da época como cuidar da parto. Depois deles, aqueles que vieram a seguir também se encarregaram de nos transmitir esse conhecimento, e é assim que a tradição continua”
No Portão do Não-Retorno, em Uidá, duas esculturas de Egungun guardam o monumento que marca a despedida dos que foram enviados às Américas. Segundo o chefe da equipe em Sakété, havia a compreensão de que aqueles que morriam na travessia teriam suas almas recebidas pelos espíritos Egungun, garantindo seu retorno ao território ancestral. Ele explica:
“O corpo físico não pode voltar, mas a alma sempre retorna. Então, quando essas almas voltam, para evitar que fiquem vagando por aí, são os Egun que irão recebê-las. E, depois disso, aqueles que pertencem à nossa serão reencarnados como Egungun.”
O culto a Egungun no Brasil
Muitos elementos das religiões afrobrasileiras, como o candomblé, preservam práticas originadas de comunidades que cultuavam Egungun na Nigéria e no Benin. No Brasil, o culto principal está na Ilha de Itaparica, na Bahia. Para o chefe dos egunguns em Sakété, esse legado deixado fora da África reforça a importância da continuidade desta identidade iorubá.

“Eles formaram famílias lá. E hoje, nós precisamos garantir que nossas tradições continuem. Fico feliz em saber que, lá fora, eles também se esforçam para manter algumas dessas práticas. Mas, se queremos que nossas tradições e nossas identidades culturais endógenas se perpetuem, precisamos nos dedicar a participar do festival. Se esses irmãos, esses descendentes, esses irmãos e irmãs puderem voltar para casa de vez em quando, participar física, moral e financeiramente das celebrações das nossas, acredite que isso será algo muito muito bom.”
Ele conclui: “A tradição nunca deve desaparecer. Se alguém morre, os que devem ficar continuam, porque é a nossa tradição, é a nossa cultura, é a herança da nossa família. Se um dia isso desaparecer, significaria que a própria família desapareceu.”
Vaquinha para reforma da casa de Egungun
O chefe da divisão, Osseni Kolade, afirmou ao Brasil de Fato que uma família tem sofrido com as condições precárias da casa onde a proteção é guardada, principalmente por conta do telhado, que precisa ser trocada. Por conta disso, organizamos uma vaquinha on-line direcionada à reforma do espaço sagrado da família Iloko Arelu. Para contribuir, clique aqui.