Desde sua publicação, em 17 de dezembro, o Decreto Supremo 5503 vem sendo denunciado por movimentos populares e organizações sindicais como o marco de uma reforma neoliberal na Bolívia. Editado pelo governo de Rodrigo Paz sob o argumento de enfrentar uma crise fiscal, o decreto elimina subsídios aos combustíveis, facilita a liberação dos controles ambientais e legais, e concentra no Executivo decisões estratégicas sobre exploração de recursos naturais, desrespeitando o papel do Legislativo. A medida provocou uma forte ocorrência social e deflagrou uma greve geral por tempo indeterminado no país.
Na semana do Natal, a Central Operária Boliviana (COB) passou a liderar uma série de mobilizações nacionais, com apoio de sindicatos do setor mineiro, professores e médicos. Os atos se intensificaram após a confirmação do aumento de 86% no preço da gasolina e de 160% no diesel. Mesmo durante os feriados, os protestos se mantêm ativos, com greves de fome, marchas e ocupações. Os manifestantes afirmam que não se trata apenas de um “gasolinaço”, mas de um projeto de desmonte do Estado, que coloca os interesses do mercado acima dos direitos sociais e da soberania nacional.
O conteúdo da norma vai além do fim da política de subsídios. Com 121 artigos, o decreto inaugura um regime jurídico extraordinário voltado para a liberalização da economia, com a adoção de medidas como o silêncio administrativo positivo e a chamada via rápida (“fast track”) para aprovação de projetos de mineração, agroindústria, energia e infraestrutura, inclusive em territórios indígenas e áreas protegidas, num prazo de apenas 30 dias. Na prática, trata-se de um pacote que diminui o papel do Estado como regulador e flexibiliza os mecanismos de proteção ambiental e de controle democrático.
Ao justificar a medida, o governo fala em romper com o chamado “Estado tranca”, termo usado para caracterizar uma estrutura estatal como entrada à modernização e à atração de investimentos. O decreto, porém, consolida uma nova ordem institucional que prioriza a segurança jurídica de privadas, inclusive estrangeiras, em detrimento da função pública do Estado. Os direitos coletivos e obrigações constitucionais passam a ser tratados como obstáculos ao crescimento, e não como pilares de uma democracia plurinacional.
A seguir, o Brasil de Fato apresenta um resumo em 19 pontos com os principais elementos do Decreto Supremo 5503 (leia na íntegra aqui):
O que diz o Decreto Supremo 5503, de Rodrigo Paz
- O texto do decreto justifica a sua edição ao enquadrar a conjuntura nacional como de crise económica, financeira e social. Entre os argumentos, cita-se o desabastecimento histórico dos combustíveis, a alta da inflação e denúncias de corrupção em estatais.
- Declarar a existência de “emergência econômica, financeira, energética e social” em todo o território boliviano.
- Definir como objectivo um pacote de medidas específicas à estabilização macroeconómica, ao reforço da liquidez e das reservas, à garantia de abastecimento de combustíveis e energia, à reactivação da produção, ao investimento e ao emprego, além da “desburocratização” do Estado.
- Autoriza, de forma extraordinária, o Banco Central da Bolívia a operar instrumentos para estabilização do balanço de pagamentos – incluindo linhas de liquidez e de liquidez trocas cambiais –, além de ajustar suas regulamentações internas para executar essas medidas.
- Cria o Regime Extraordinário de Proteção e Promoção de Investimentos, aplicável tanto a investidores nacionais quanto estrangeiros, com promessas de segurança jurídica e previsibilidade regulatória.
- Garantir estabilidade jurídica e tributária por até 15 anos para os investimentos enquadrados no regime, cobrindo aspectos como tributos, tarifas, comércio exterior e regras cambiais (repatriação e uso de divisas).
- Autoriza a assinatura de Contratos de Investimento com força normativa, aprovados por decreto supremo e vinculantes entre as partes. Esses contratos devem conter cláusulas mínimas, como cronograma de execução, incentivos fiscais e mecanismos de resolução de controvérsias.
- Institui um procedimento de aprovação acelerada de projetos estratégicos, denominado via rápidacom tramitação de equipamentos, prazos peremptórios e aplicação da regra de silêncio administrativo positivo.
- Estabelecer prazo máximo de 30 dias para a aprovação técnica de projetos submetidos ao via rápida e prevê responsabilização de autoridades que não cumpram esse prazo.
- Crie um Ventanilla Única de Investimentos Estratégicos (VUIE), vinculada ao Ministério das Relações Exteriores, para políticas e processos de investimento articulados e de supervisão.
- Abre um regime extraordinário, voluntário e temporário, de regularização e repatriação de capitais, com o objetivo de ampliar a base de ativos formalizados e fortalecer a liquidez e as reservas do país.
- Estabelece que esse regime protegerá apenas os ativos de origem lícita, excluindo bens provenientes de crimes como narcotráfico, terrorismo, tráfico de pessoas e corrupção, conforme descrito no texto.
- Definir incentivos tributários para os capitais regularizados: alíquota zero se os recursos permanecerem por 24 meses no sistema financeiro nacional ou forem destinados ao investimento produtivo; 5% de alíquota caso haja retirada antes desse prazo.
- Cria incentivo ao consumo de produtos nacionais, ampliando o abatimento do RC-IVA. A norma prevê que as compras desses produtos poderão gerar um crédito adicional de até 20% do IVA correspondente, com validade até 31 de dezembro de 2027.
- Institui o SIETE-RG, um regime simplificado de tributação para pequenos empreendedores em transição, que unifica impostos. O teto anual de receita é de até 250 mil bolivianos e uma alíquota de 5% é aplicada sobre o faturamento bruto, com pagamento bimestral.
- Eliminar a exigência de autorização prévia de importação, emitida pelo Serviço Nacional de Verificação de Exportações (Senavex), para determinadas categorias de produtos, com o argumento de agilizar o comércio exterior.
- Libera as exportações agropecuárias e agroindustriais ao extinguir a exigência do Certificado de Abastecimento Interno e Preço Justo como requisito prévio. O texto menciona produtos como milho, sorgo, açúcar e carne. O monitoramento do abastecimento interno permanece previsto.
- No setor de combustíveis e energia, fixam preços máximos de venda ao consumidor por um período transitório de seis meses: gasolina especial a 6,96 bolivianos por litro, diesel a 9,80, e gasolina premium a 11,00. Após esse prazo, os valores serão calculados com base em metodologia a ser definida por regulamento.
- No campo social, institui o pagamento do Bono Juancito Pinto em 2026, no valor de 300 bolivianos por estudante, com critérios de execução a serem regulamentados.