Como O Atlético reproduz a finalização de pé esquerdo de Rodrigo Muniz contra o Chelsea, o jogador de 24 anos se vira por um momento e pega o telefone.
Ele está respondendo a uma mensagem? Rolando nas redes sociais? Certamente ele não está entediado com a vitória aos 96 minutos contra os rivais do Fulham no oeste de Londres?
“Acho que esse ângulo é muito melhor”, diz ele, revelando um vídeo feito por sua esposa entre os torcedores visitantes no Shed End de Stamford Bridge.
Membros. Em todos os lugares.
Muniz, 90+5′. pic.twitter.com/1LJGGnd8px
– Fulham Football Club (@FulhamFC) 26 de dezembro de 2024
“Minha esposa vai a todos os jogos. Copa Carabao, em casa e fora, tudo”, diz ele.
Ela teve um bom valor, vendo seu marido marcar no Etihad, Anfield, Emirates Stadium, St James’ Park e aquele gol dramático em Stamford Bridge, tudo na mesma temporada – o primeiro jogador a fazer isso desde Harry Kane em 2015-16.
“Acho que com confiança, essas coisas acontecem normalmente”, diz ele. “Acho que o Rodrigo há dois anos teria tentado marcar contra o Chelsea com um chute de primeira e talvez errado, mas agora com um pouco mais de convicção consegui manter a calma porque estou mais preparado para essas situações.”
Há cordialidade e simpatia em seu comportamento, mas à medida que entramos nos detalhes dos clipes – seus objetivos, movimentos, jogadas de assalto – ele fica focado. Muniz ainda quer melhorar. Embora sua jornada até a Premier League já seja marcada por muito trabalho nos bastidores, tanto ele quanto o técnico do Fulham, Marco Silva, exigem mais.
“Acho que virei um bom atacante, mas tem muita coisa que preciso melhorar. Jogar mais, treinar bem, isso vai me tornar um jogador melhor”, afirma.
Muniz também trabalha com analistas de vídeo fora do clube e ainda conversa regularmente com Filipe Luis, ex-lateral do Atlético de Madrid e atual técnico do Flamengo, para obter conselhos. “Ele foi como um padrinho para mim; me ajudou muito e continuamos bons amigos.”
Os números são excepcionais, mas Muniz continua firme e ansioso para seguir avançando. Desde as sutilezas de seu movimento de caixa até seus oponentes mais difíceis, foi assim que ele deu um passo à frente.
Muniz tem lutado para manter um tempo de jogo consistente nesta temporada no Fulham, em meio a lesões leves e forte competição no clube pela posição de número 9, mas sua taxa de gols de 0,6 gols sem pênaltis a cada 90 minutos desde o início da temporada passada o coloca em companhia de elite.
Dos jogadores com mais de 2.000 minutos nesse tempo, apenas Diogo Jota, Alexander Isak e Erling Haaland marcaram golos com maior regularidade durante o tempo em que estiveram em campo.

Uma boa parte desses esforços veio através de cabeçadas (37 por cento) – o que não surpreende numa equipa de Marco Silva, com os 17,7 cruzamentos em jogo aberto do Fulham por 90, sendo mais do que qualquer outro clube da Premier League na época passada.
“Sinto-me confortável em cabecear. Desde que joguei pelo Flamengo no Brasil, já faço gols há muito tempo”, diz Muniz.
“Uma das coisas que o Marco Silva me fala sobre cruzamentos é que ele gosta que os extremos ou laterais levantem as suas entregas. É uma parte importante do meu jogo e penso que particularmente no poste mais recuado, é um dos pontos fortes do meu jogo.”
O cabeceamento ainda pode ser percebido como uma parte agrícola do jogo, mas para ser executado corretamente, tal ação requer um bom timing, movimentos inteligentes e uma compreensão clara das entregas dos seus companheiros de equipe.
Por exemplo, contra o Brighton na temporada passada, Lewis Dunk está acompanhando a corrida de Muniz enquanto Harry Wilson corta para dentro com seu pé esquerdo mais forte. O movimento é sutil, mas o brasileiro dá um passo para a esquerda para criar um metro de espaço para disparar para a direita. Com Dunk surpreso na corrida simulada, uma jarda é tudo que Muniz precisava para atacar o cruzamento e cabecear além de Jason Steele.

“Esse é o tipo de movimento que o Marco Silva exige muito de mim. Porque quando procuro atacar da entrada da área normalmente deslizo para o poste de trás. Mas aqui eu vendo o boneco e já ataquei o poste da frente”, revela Muniz.
“Antes deste jogo, os caras que me ajudam taticamente conversaram comigo e disseram que quando você tiver a chance de atacar o zagueiro, tente misturar e atacar o primeiro poste.”
Muitas vezes, um toque é tudo o que Muniz precisa para finalizar, com 72 por cento de seus esforços vindo de chutes de primeira desde o início da temporada passada. Entre os avançados da Premier League, apenas Chris Wood, do Nottingham Forest, tem uma taxa mais elevada (75 por cento) nesse período.
“Acho que é algo que trouxe do Brasil”, diz Muniz. “É algo que fiz muito. Melhorar essa habilidade me ajudou a marcar muitos gols.”
Nessas finalizações de primeira, Muniz tem uma tendência especial para passar à frente de um defensor pego de surpresa para uma finalização simples. Contra o Aston Villa em 2023-24, uma bola levantada para Antonee Robinson fez com que o lateral-esquerdo do Fulham perseguisse a bola no flanco antes de cruzar pela primeira vez para o poste mais próximo – com Muniz se colocando fora da visão periférica do zagueiro central Clement Lenglet.
Com Lenglet e o goleiro Emiliano Martinez acreditando que a situação está sob controle, Muniz avança, aparentemente do nada, para passar à frente de ambos para mais uma finalização de primeira.

Para aqueles que procuram mais exemplos, veja a fita sobre o Newcastle fora e o Liverpool fora em 2024-25, ou o Tottenham em casa e o Bournemouth em casa em 2023-24.
“Acho que é algo que surge naturalmente”, diz Muniz. “Marco diz toda semana: ‘Poste da frente! Poste da frente! Poste da frente!’. Quando é o Jedi (Antonee Robinson), sei que a bola chegará mais cedo e provavelmente chegará ao poste da frente, o que facilita quando entendemos nossos companheiros de equipe.”
Ter essas conexões com seus colegas é crucial. As 15 chances de jogo aberto de Robinson criadas para Muniz são mais do que qualquer outro companheiro de equipe desde o início da temporada passada. Diferentes movimentos são necessários para diferentes companheiros de equipe, e é uma parte do jogo que Muniz faz questão de estudar – permitindo-lhe empregar o movimento certo na hora certa.
“Construir esses relacionamentos é muito importante”, diz Muniz. “No treino você começa a entender tudo isso – acima de tudo, o que é bom para mim é bom para o cruzador e, portanto, bom para a equipe. O Marco Silva falou comigo e disse: ‘Preciso que você tenha essa ligação com o Emile, ou com o Alex, porque é importante para mim’. A ligação que tenho com o Andreas (Pereira) é muito boa, mas preciso construir isso com todos.”
O gol excepcional de Muniz contra o Sheffield United é um grande exemplo dessa compreensão de seus companheiros. Uma finalização acrobática no canto superior é, sem dúvida, o foco, mas sem a apreciação da preferência de cruzamento de Adama Traore, tal esforço poderia não ter sido concretizado.

“Quando o Adama tem a bola aqui, ele sempre tenta cruzar igual, raramente puxa para trás”, revela Muniz.
“Todo mundo está mais fundo, então sei que se eu cair naquele espaço (em direção à marca do pênalti), será melhor. Preciso que atacantes e alas me dêem a bola, então preciso entender cada um deles.”
Cruzamentos de ataque são uma coisa, mas Muniz faz questão de destacar sua versatilidade como atacante moderno – alguém que pode correr atrás, segurar a bola e se conectar com os outros, além de atacar a área.
“No Brasil o jogo é mais aberto e correr atrás é importante; é mais uma mistura. Então, no dia em que cheguei ao Campeonato e tudo se resumia a colocar a bola no atacante e sob controle – foi muito diferente”, diz Muniz.
“Acho que corro um pouco menos atrás aqui, mas quando cheguei aqui estava o Mitrovic, então essa era a identidade do Fulham ser um time que conseguia jogar um futebol bonito e controlado com um número 9 que consegue fazer as coisas durarem, e não havia muito movimento atrás.
“Depois, com a chegada do Raul (Jimenez) e de mim, começamos a atacar um pouco mais o espaço. Consigo controlar a bola e posso atacar o espaço, então para mim está tranquilo.”
Essa versatilidade é demonstrada nos números de corridas de Muniz usando dados do SkillCorner, que descreve os tipos de corridas sem bola de um jogador como uma parcela do total de corridas realizadas. Embora haja uma parcela razoável de corridas cruzadas (corridas em direção ao gol para receber um possível cruzamento – 44 por cento), muitas das corridas do brasileiro são atrás da linha defensiva (30 por cento) ou à frente da bola (16 por cento).

Um bom exemplo dessas corridas atrás pode ser visto na vitória do Fulham sobre o Wigan Athletic na quarta rodada da Copa da Inglaterra deste ano. Com Muniz liderando o ataque contra uma linha defensiva alta, observe como ele já inicia sua corrida antes que seu companheiro Pereira receba a bola (quadro 1).
Um passe rápido de Pereira cai perfeitamente nos pés de Muniz – que rompeu a defesa do Wigan – para acertar Sam Tickle na primeira vez.

“Andreas melhorou muito meu jogo”, diz Muniz. “Tenho um ótimo entendimento com ele em campo e quando ele está com a bola sei que ele vai tentar me encontrar, então tenho que fazer um movimento mais perturbador sempre que ele estiver com a bola.”
“Consigo prender muito bem a bola de costas para a baliza, mas também posso atacar o espaço atrás porque sou rápido, por isso o Marco Silva pede-me para cair curto e receber em pé mas também atacar o espaço.”
Corridas altruístas são normais para qualquer atacante, com o perfil de Muniz sendo aquele que não costuma vagar para receber a bola, mas fica entre a largura das traves. Desde o início da temporada 2023-24, apenas Haaland teve menos toques por chute na Premier League.

“O camisa 9 não recebe muito a bola, por isso é importante trabalhar duro sem ela para se sentir envolvido no jogo”, diz Muniz. “Quando a gente recebe e consegue controlar, ligar e dar continuidade à jogada, você se sente bem no jogo.”
O perfil físico de Muniz faz com que lutar contra os zagueiros seja uma grande parte de sua dieta em campo. Entre os atacantes com mais de 2.000 minutos desde o início da temporada 2023-24, apenas Beto, do Everton, disputou mais duelos aéreos do que seus 11,1 em 90.
Apenas cinco atacantes sofreram mais faltas do que os 2,3 a cada 90 de Muniz neste período, o que só serve para reforçar seu estilo de jogo tenaz. Crucialmente, quem foi seu oponente mais difícil?
“(Harry) Maguire”, Muniz revela sem hesitação. “Maguire e Van Dijk seriam meus dois melhores – Van Dijk lhe dá um pouco mais de espaço. O zagueiro perfeito seria uma mistura de Maguire e Van Dijk. É muito difícil jogar contra os dois. Ambos têm muita qualidade, tanto na fisicalidade quanto no ritmo.”
Por sorte, O Atlético mostra a Muniz um pequeno clipe dele lutando com os zagueiros segundos depois. O adversário? Maguire, jogando Muniz no chão após um passe certeiro feito na esquina, de costas para o gol.
“Ele está sempre fazendo contato, não te deixa em paz, é constante. Tem que estar muito focado.”

Apenas oito partidas na Premier League em 2024-25 serão uma fonte de frustração para Muniz, mas não lhe falta ambição ou crença de que é capaz de jogar regularmente ao mais alto nível.
“Tenho o sonho de jogar na Liga dos Campeões e acima de tudo ser convocado para a seleção nacional”, revela Muniz. “Sei que para isso acontecer tenho que brincar e continuar fazendo o trabalho que tenho feito. O que depende de mim, vou fazer, e outras coisas que não tenho controle, só tenho que esperar.”
A chegada de Carlo Ancelotti ao cargo de técnico da Seleção Brasileira ocorre em um momento em que a Seleção precisa desesperadamente de alguma reforma — uma situação que Muniz poderia usar a seu favor. Dado o seu perfil, o brasileiro sente que tem algo diferente para oferecer à sua seleção?
“Acho que vai depender do treinador. Alguns preferem esse estilo mais controlado, outros gostam de atacar o espaço. Temos atacantes que conseguem segurar muito bem a bola – o Pedro do Flamengo é um jogador muito bom. Temos também o Richarlison e o João Pedro que conseguem atacar muito bem o espaço.
“Acho que posso fazer um pouco dos dois e sou um tipo diferente de número 9, mas veremos.”
(Foto superior: Justin Setterfield/Getty Images)