Igor Jesus, uma das estrelas do Mundial de Clubes, comemora seus gols imitando um personagem de desenho animado japonês. Os companheiros das categorias de base o chamavam de Sapinho – Sapo – porque ele pulava quando jogava no gol. Quando criança, ele passava os fins de semana em uma banca de mercado em sua cidade natal, ajudando seu avô a limpar peixes.
Tudo isso são curiosidades. Juntos, eles contam um pouco sobre o atacante do Botafogo e de onde ele vem. Mas o mais interessante sobre Igor Jesus é algo totalmente diferente. É o seguinte: há pouco mais de um ano, quase ninguém tinha ouvido falar dele.
Em 2023 e nos primeiros meses de 2024, seu nome apareceu em diversas matérias empolgantes da imprensa carioca. O nome dele, mas não dele: o burburinho era sobre o meio-campista do Flamengo, Igor Jesus, ex-meio-campista do Brasil Sub-23 que hoje joga no Los Angeles FC. Seu homônimo – nosso Igor Jesus – foi tão relevante para o cenário do futebol local quanto você ou eu.
Ele estava jogando pelo Shabab Al Ahli, dos Emirados Árabes Unidos. Ele estava lá desde outubro de 2020. Até os torcedores do Coritiba, clube brasileiro onde Igor Jesus estreou, quase esqueceram que ele existia.
Igor Jesus e sua celebração em desenho animado (Foto: Justin Setterfield – FIFA/FIFA via Getty Images)
Não é incomum que jogadores de futebol brasileiros se mudem para o Oriente Médio. O dinheiro pode ser incrivelmente bom: alguns anos ali podem proporcionar segurança financeira durante anos, às vezes até gerações. Inúmeros jogadores foram para os Emirados Árabes Unidos, para o Catar, para a Arábia Saudita. Treinadores também. Muitos deles retornam para uma segunda, terceira e quarta passagens.
Essa opção normalmente tem um custo, no entanto. Quando você se muda para Dubai aos 19 anos, como fez Igor Jesus, as pessoas vão – com ou sem razão – inferir certas coisas sobre sua capacidade, suas prioridades, como você vê sua carreira. Fique até os 23 anos e esses pensamentos serão amplificados. Estes são os anos de desfile de qualquer carreira. É incrivelmente raro um jogador passar fora dos holofotes e ainda ter impulso suficiente para decolar.
Igor Jesus riu da convenção.
Ele chegou ao Botafogo em julho de 2024, supostamente como reserva do atacante titular Tiquinho Soares. Isso não o impediu de afirmar sua intenção de ingressar na Seleção Brasileira. Três meses e 19 partidas pelo Botafogo depois, ele fez exatamente isso, marcando na estreia contra o Chile. Em janeiro, ele recusava ofertas da Europa.
Agora ele está estrelando no cenário global, com a transferência para o Nottingham Forest, da Premier League, já acordada. Não é um ano ruim de trabalho para ninguém.
Igor Jesus deve muito a Alessandro Brito, diretor esportivo do Botafogo, responsável pela transferência que trouxe o atacante de volta ao Brasil.
Como olheiro do Athletico Paranaense, Brito assistiu muito a Igor Jesus nas categorias de base e o valorizou muito. Quando chegou ao Botafogo, em 2022, já sabia quem colocar no topo da sua lista de desejos.
Nessa altura, Igor Jesus estava a recuperar a forma física e a confiança após uma lesão de longa duração. Sua forma no decorrer da temporada 2023-24 – ele terminaria com 17 gols em todas as competições – fortaleceu os argumentos para contratá-lo. O Botafogo tentou contratá-lo em janeiro de 2024, mas concordou com um pré-contrato antes de uma transferência gratuita no verão. Uma oferta de € 10 milhões (£ 8,5 milhões; US$ 11,7 milhões) de outro clube dos Emirados chegou antes mesmo de Igor Jesus ter viajado para fazer exames médicos no Rio.
O Botafogo recusou. Provou ser uma decisão inteligente. Igor Jesus adaptou-se rapidamente, ultrapassando Soares na hierarquia e marcando seis gols e uma assistência nas primeiras sete partidas. Houve também uma mudança tonal além dos números. Seu movimento empurrou as defesas da oposição para trás. Ele desviou ao lado, convidando Thiago Almada e Luiz Henrique para o campo. Os três, mais o craque venezuelano Jefferson Savarino, pareciam jogar juntos desde crianças.
O seu treinador, Artur Jorge, não escondeu a alegria. “Ele é o melhor atacante do país, não há dúvida disso”, disse ele em outubro.
Dorival Junior, então técnico do Brasil, concordou. Ele colocou Igor Jesus direto no onze inicial e colheu os benefícios, com o atacante coroando uma bela exibição contra o Chile com um gol. “O Igor nos deu essa presença na área”, disse Dorival. “Ele pode atuar como pivô em certos momentos, mas ainda procura ficar atrás.”
Jesus traz sua presença para a seleção (Foto: RODRIGO ARANGUA/AFP via Getty Images)
No final da temporada, ele ajudou o Botafogo a conquistar o Campeonato Brasileiro e a Copa Libertadores. Poderia facilmente ter sido isso. Forest ofereceu cerca de 30 milhões de euros em janeiro, o suficiente para o Botafogo. O jogador, porém, queria ficar, pelo menos até depois do Mundial de Clubes.
O início de 2025 foi turbulento. O Botafogo se separou de Artur Jorge e entrou em ebulição. Igor Jesus pagou o preço com sua vaga no Brasil. Só com a chegada de Renato Paiva — outro treinador português – as coisas começaram a melhorar novamente.
Paiva usou Igor Jesus de uma forma um pouco diferente. Ele joga com três meio-campistas bastante defensivos, atribuindo tarefas criativas aos jogadores laterais. Há menos troca de posições e menos espaço para improvisação.
“Sob o comando do Artur tive muita liberdade para me movimentar e criar espaço para os laterais”, disse Igor Jesus ao GloboEsporte em março. “Estávamos sempre trocando de posição e isso dificultava a marcação dos times. Hoje, com o Paiva, jogo mais como camisa 9. Ele me pede para ficar mais na área, para estar lá para finalizar nos rebotes e nas bolas perdidas.”
Se havia alguma ambivalência ali, ela evaporou nas últimas duas semanas. Paiva pode tê-lo feito um jogo mais convencional, mas fez isso com perfeição, segurando a bola de forma brilhante, colocando os companheiros em jogo, ocupando os defensores com sua força, disparando atrás. Seus dois gols até agora – aquele gol brilhante contra o PSG, uma cabeçada contra o Seattle Sounders – foram o mínimo que ele mereceu.
A turnê de despedida começou no início de junho, quando Igor Jesus disputou sua última partida no Estádio Nilton Santos, do Botafogo. Foi uma noite emocionante: os torcedores exibiram uma enorme faixa em sua homenagem e o aplaudiram fora do campo ao final da vitória por 3 a 2 sobre o Ceará. “Esta foi uma jornada maravilhosa”, disse o jovem de 24 anos. “O Botafogo me fez acreditar novamente no meu potencial.”
Ele voltou ao tema antes do início do Mundial de Clubes, refletindo sobre as decisões que o levaram até aqui. Seu caminho atípico até o grande momento não é apenas uma peculiaridade de sua história, uma pequena nota de rodapé curiosa. É a história. Do jeito que ele vê, foi a criação dele.
Igor Jesus passou alguns de seus anos de formação no Shabab (Foto: FAYEZ NURELDINE/AFP via Getty Images)
“Se eu tivesse deixado o Brasil aos 19 ou 20 anos, acho que ficaria nervoso em jogar em uma competição como a Premier League”, ele disse ao GloboEsporte. “Hoje me sinto preparado. Saio daqui como um jogador de futebol mais experiente. Amadureci muito. Tenho certeza que isso vai me ajudar na Europa.”
Antes disso, é claro, ainda há um grande trabalho a fazer. No sábado, o Botafogo enfrenta o Palmeiras. Ganhe isso e a chave do Mundial de Clubes pode começar a se abrir. O time que surpreendeu a todos ao conquistar a Libertadores ainda pode ter mais uma ou duas surpresas na manga.
“Não saí no início do ano porque queria jogar este torneio”, disse Igor Jesus no início do mês. “Farei o meu melhor para ajudar este clube e os meus companheiros. Sinto essa obrigação.”
(Foto: YURI CORTEZ/AFP via Getty Images)