Poderia Neymar se arrastar para uma última Copa do Mundo com o Brasil?

Poderia Neymar se arrastar para uma última Copa do Mundo com o Brasil?


Às vezes, um momento ruim pode ser um bom presságio.

É uma das máximas a que os brasileiros se apegam quando as coisas não vão bem para a seleção, um pequeno amuleto para a alma. É um lembrete de que, apesar de todos os benefícios da estabilidade e do planeamento sensato, o sucesso é igualmente frequentemente conjurado a partir do caos.

Não é preciso olhar além dos sucessos do Brasil na Copa do Mundo para encontrar evidências. Em 1970, o técnico João Saldanha foi demitido pouco antes do torneio e um país prendeu a respiração devido à condição física do atacante Tostão. Em 1994, o Brasil precisou de dois gols no final do jogo contra o Uruguai para garantir uma vaga de qualificação na final.

Depois houve a preparação para a Copa do Mundo de 2002, que tem sido citada com frequência crescente – e, sim, com grande esperança – nos últimos meses. As comparações com o momento atual são inevitáveis.

O Brasil passou por quatro treinadores nesse ciclo; eles estão no quarto deste. Em 1993, eles foram eliminados da Copa América nas quartas de final; a edição de 2024 seguiu o mesmo padrão. Eles chegaram à Copa do Mundo de 2002 por um triz; as coisas foram apenas um pouco menos complicadas desta vez.

Para os verdadeiros crentes, isso já é algo bastante convincente. As últimas semanas, porém, trouxeram outro elemento à mistura.

Depois que o Brasil se classificou para o torneio de 2002, o foco da mídia mudou para uma história em escala humana. Centrava-se em Romário, o ídolo bad boy do público brasileiro, e em sua tentativa de se arrastar para uma última Copa do Mundo. Houve uma prolongada campanha mediática a seu favor – até o presidente do país, Fernando Henrique Cardoso, opinou. Quando o técnico Luiz Felipe Scolari ignorou os apelos para incluir Romário em seu elenco, ele foi confrontado por uma multidão enfurecida no Rio de Janeiro. O próprio Romário convocou uma coletiva de imprensa e caiu no choro. Dois meses depois, o Brasil venceu a Alemanha e conquistou sua quinta Copa do Mundo.

Você já saberá onde isso vai dar, e sim, já é hora de trazê-lo, o pirralho-príncipe de 2026, o homem cuja forma, preparo físico, estado psicológico e escolha do corte de cabelo serão todos reunidos em uma meganarrativa contínua nos próximos seis meses.

Bem-vindo ao Neymar: o referendo. Você encontrará um colete retardador de fogo embaixo do assento.

Para quem se despediu do Neymarverse nos últimos dois anos, aqui vai um rápido resumo de onde estamos. Neymar trocou o Paris Saint-Germain pelo Al Hilal, da Arábia Saudita, em agosto de 2023, sofreu uma grave lesão no joelho dois meses depois e não jogou mais pelo time. Em janeiro, voltou ao Brasil, assinando pelo clube de infância Santos.

Neymar ajudou o Santos a evitar o rebaixamento (Miguel Schincariol/AFP via Getty Images)

Ele fez 29 partidas na temporada brasileira de 2025. Ele marcou 11 gols e preparou mais quatro. Ele perdeu 17 partidas devido a lesão. Ele completará 34 anos em fevereiro.

Estes não são, à primeira vista, números encorajadores. (Romário, por outro lado, tinha 36 anos, mas marcou 40 gols pelo Vasco em 2001, além dos 66 da temporada anterior.) Nem o avanço deles lhe ajuda muito. Seis dessas 15 contribuições de gols ocorreram em partidas de baixa potência da fase de grupos do Campeonato Paulista, por exemplo.

Isto não quer dizer que não tenha havido momentos de graça, pequenos lampejos de o velho Neymar. Ele ganhou um pênalti com uma habilidade gloriosa contra o Agua Santa em fevereiro e marcou direto de escanteio algumas semanas depois. Nas últimas rodadas do Campeonato Brasileiro, primeira divisão do país, ele arrastou o Santos da batalha do rebaixamento quase sozinho, apesar de tratar de um problema no menisco.

Ainda assim, sem dúvida houve mais quedas do que picos. Problemas frequentes nos isquiotibiais atrapalharam seu ímpeto – e o de sua equipe. Mesmo quando estava em boa forma para começar, ele parecia um cara que estava afastado há mais de um ano. Essa é uma consequência compreensível daquela grave lesão no joelho, mas também de uma desaceleração geral, com os anos de glória das pernas dobradas desaparecendo na névoa da memória.

Sendo Neymar, também houve desavenças e psicodramas. Ele provocou os torcedores adversários durante a derrota por 3 a 0 para o Mirassol. Ele passou a derrota por 3 a 2 para o Flamengo em novembro reclamando dos companheiros e do árbitro, depois avançou pelo túnel, passando pelo técnico Juan Pablo Vojvoda, após ser substituído.

“Ele é um grande nome, mas dar o exemplo certo é importante”, ex-técnico da seleção brasileira Vanderlei Luxemburgo disse depois daquela demonstração de petulância. “O futebol é um jogo coletivo. Os verdadeiros líderes impulsionam as suas equipas com a atitude certa.”

Neymar fará uma cirurgia no joelho agora que a temporada brasileira terminou (Miguel Schincariol/AFP via Getty Images)

A opinião de Luxemburgo coincidiu com a de outro ex-técnico da Seleção, Emerson Leão. “Ele não é exemplo para ninguém” Leão disse à CNN Brasil no início da temporada. “Não vejo Neymar resolvendo nossos problemas. Já ultrapassamos ele.”

Leão estava falando sobre a seleção brasileira. Muita gente no Brasil concordaria com ele. O que é mais interessante é quantos não o fariam.

Você pode presumir, com base em seu histórico de lesões e idade, que estamos firmemente na era pós-Neymar. Sua última aparição pelo Brasil foi em outubro de 2023, e 28 jogadores fizeram sua estreia internacional sênior desde então. Houve uma troca de guarda.

Neymar, porém, como Romário antes dele, é um jogador de futebol que o Brasil simplesmente não consegue desistir. Carlo Ancelotti foi questionado sobre ele em quase todas as conferências de imprensa que realizou desde que se tornou seleccionador nacional. Essa semana, notícia de que Neymar fará uma cirurgia no menisco problemático levou a inúmeras histórias sobre sua corrida para estar apto para o próximo verão.

Os grandes e bons do futebol brasileiro, entretanto, ainda falam dele em tom reverente.

“O Brasil só tem chance de vencer a Copa do Mundo se estiver lá”, disse Romário em entrevista ao SporTV em setembro.

Ronaldo, o ex-atacante brasileiro, foi igualmente efusivo. “É um jogador decisivo para a seleção nacional” ele disse em um evento recente. “Não temos outro jogador como ele.”

Ancelotti não falta opções no terço final. Vinicius Junior, Raphinha, Rodrygo, Estevão, Matheus Cunha, João Pedro, Luiz Henrique, Richarlison e Gabriel Martinelli disputam vagas na seleção para a Copa do Mundo. Ronaldo, porém, está certo: Neymar é – sempre foi – diferente. Nenhum jogador foi tão consistentemente decisivo para o Brasil nos últimos 15 anos. Nenhum jogador pode igualar sua criatividade — ou, francamente, seu poder estelar. Se ele pudesse voltar ao seu melhor, ele ficaria de fora.

Esse “se”, porém, contém muita incerteza. Uma coisa é perguntar se Neymar conseguirá parar de se machucar, se conseguirá manter uma sequência sólida de jogos. Também é válido perguntar como é o seu nível superior. O teto já havia sido reduzido em 2023. Onde poderá estar em 2026?

Ancelotti tem sido consistente. Ele disse repetidamente que só escolherá jogadores totalmente aptos. E embora também tenha feito questão de elogiar Neymar, houve apenas uma pitada de exasperação em sua resposta quando a pergunta lhe foi feita pela milionésima vez após o sorteio da Copa do Mundo, no início do mês.

“Se Neymar merecer estar lá, se estiver em forma e com desempenho melhor que os outros, jogará a Copa do Mundo”, disse Ancelotti. “Não devo nada a ninguém.”

A porta está destrancada, então, mas o próprio Neymar terá que abri-la. Tudo isso nos leva de volta ao Romário e à única certeza real de tudo isso: valerá a pena assistir os próximos seis meses, de uma forma ou de outra.


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