É a rotina do Sábado de Zé Pereira no Recife: antes mesmo do amanhecer, os comerciantes buscam posicionar seus carrinhos e isóporos em pontos estratégicos da Ilha de Joana Bezerra, desde o viaduto Capitão Temudo, por toda a extensão da rua Imperial, avenidas Sul e Dantas Barreto, até as imediações da praça Sérgio Loreto e do Forte das Cinco Pontas, a leste, e avenida Guararapes, a oeste. Em poucas horas, cada metro quadrado deste percurso será feroz e alegremente disputado pelos mais de 1,5 milhão de foliões que são aguardados para mais uma edição do Galo da Madrugada.
Uma semana de tempestades e a previsão de céu nublado, com chuvas espaçadas, e temperatura entre os 25ºC e 30ºC – cenário incomum para este período do ano no Recife – não deve ser capaz de conter o ímpeto da multidão que, em 1994, garantiu ao Galo o reconhecimento, no Guiness Book, como maior bloco de Carnaval do planeta. A brincadeira iniciada em 1978, com uma orquestra de 22 músicos e 75 foliões fantasiados de almas penadas percorrendo o bairro de São José, terá em 2026 nada menos que 30 trios elétricos e a ilustre presença do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva.

Apesar das coleções de camarotes ao longo do percurso dos trios, quase a totalidade do público do Galo está no chão, na “pipoca”, onde se encontra toda a diversidade do povo pernambucano, festejando gratuitamente a imponente alegoria de que, com seus 32 metros de altura e oito toneladas, é um dos principais símbolos do Carnaval do Brasil. E foi o caráter popular do bloco que motivou, este ano, o Clube de Máscaras Galo da Madrugada a propósito como homenageados a médica psiquiatra alagoana Nise da Silveira e o religioso cearense Dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife durante o regime militar ditatorial. Ambos faleceram em 1999.
Nise, uma “Psiquiatra Rebelde”é nome internacionalmente reconhecido por humanizar o tratamento de pessoas mentalmente adoecidas. Ela rejeitou métodos invasivos e agressivos, como a lobotomia, os eletrochoques e o isolamento dos manicômios, oferecendo como alternativa a arte, o afeto e a presença. Foi uma pioneira da terapia ocupacional e conseguiu que, através da arte, os pacientes com esquizofrenia expressassem seus conflitos e dores internas. Inquieta e inspiradora, Nise se tornou referência para movimentos sociais brasileiros, como os grupos que atuam na luta antimanicomial.


Já o “Arcebispo Vermelho”por destino ou coincidência, esteve à frente da Arquidiocese de Olinda e Recife ao longo dos mesmos 21 anos que durou a ditadura: de 1964 a 1985. Neste período, fortaleceu as comunidades eclesiais de base (CEBs), foi um opositor público do regime militar e não descobriuu mesmo após ter seu “braço direito”, o padre Antônio Henrique, assassinado pelo Comando de Caça Comunista (CCC) em 1969. Dom Hélder usou sua posição para alcançar a imprensa internacional, denunciando os crimes da ditadura brasileira. É o brasileiro mais vezes indicado ao Nobel da Paz, com quatro postulações ao longo da década de 1970.
Na crônica radiofônica “Um olhar sobre a Cidade” do dia 1º de fevereiro de 1975, apresentado pelo arcebispo na Rádio Olinda AM, o Dom orientou os católicos pernambucanos que brincavam o Carnaval, declaração que se tornou célebre. “Carnaval é a alegria popular. Uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no Carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos cometidos por foliões aqui e ali, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar Carnaval. Brinque, meu povo querido! É verdade que quarta-feira a luta recomeça. Mas ao menos se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida!”.
Antes do seu arcebispado em Pernambuco, o “Dom da Paz” conseguiu junto ao Vaticano a autorização para fundar a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e foi ele próprio o propositor, durante o Concílio Vaticano II, do “Pacto das Catacumbas”, documento de 13 compromissos que viriam a influenciar a criação do movimento da Teologia da Libertação. Após sua morte, o Vaticano o seguiu como “Servo de Deus”, 1ª etapa do processo de beatificação. Há uma expectativa para sua canonização (reconhecimento enquanto santo), processo que leva décadas.
Quem toca no Galo?

Entre os artistas que comandam os trios, cuja regra é ter o frevo como ritmo predominante, o público encontra nomes bem consolidados na cena artística brasileira, como Elba Ramalho, Geraldinho Lins e Quinteto Violado, que comandam seus trios elétricos; e Chico César, que é convidado do trio liderado pela Orquestra Popular do Recife, Flaira Ferro e Almério. Além destes, outros jovens nomes da cena musical pernambucana também se unem ao Galo, exemplos de Uana (convidada no trio de André Rio), Laís Senna e Juba Valença (convidados no trio de Gustavo Travassos) e Romero Ferro (com trio próprio).
Destaques ainda para a participação de três mulheres referência na cena brega do Recife: Michele Mello, Raphaela Santos (“A Favorita”), ambas comandando seus respectivos trios elétricos; além de Priscila Senna (“A Musa”), que é convidada no trio do Maestro Spok. Há ainda os trios de artistas tradicionais do frevo e que têm espaço garantido no Galo da Madrugada: Almir Rouche, Nonô Germano, Gerlane Lops, Nena Queiroga, Asas da América e a banda Som da Terra comandam um trio cada.