Na madrugada deste sábado (14), uma Acadêmicos do Tatuapé entrou no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, para falar de reforma agrária, com o samba-enredo “Plantar para colher e alimentar: tem muita terra sem gente e muita gente sem terra”.
Para tratar de um tema tão importante, a escola conto com a parceira do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)que mostrou, na prática, o resultado da divisão justa de terras, levando para o desfile duas toneladas de alimentos saudáveis produzidos pelas cooperativas do MST de São Paulo.
Abacaxi, melancia, macaxeira, pimentão e outros alimentos estavam no carro alegórico que encerrou o desfile. “Uma diversidade de produção feita pelas mãos do trabalhador sem terra”, exalta Carla Loop, da Coordenação Nacional do Coletivo de Cultura do MST. Depois do desfile, tudo foi feito à comunidade do Tatuapé.

Além da celebração à comida saudável, o carro final prestou uma homenagem a pessoas importantes na luta pela terra, como João Paulo Rodrigues, da Direção Nacional do MST.
“O MST sai muito feliz, a reforma agrária sai engrandecida e o tema dos alimentossem dúvida nenhuma, entrou para a agenda e para a pauta do Anhembi como um dos grandes momentos do Carnaval brasileiro”, celebrou o dirigente.
O carro de encerramento teve a presença de personalidades políticas, como a deputada estadual Rosa Amorim (PT-PE) e a ministra das mulheres Márcia Lopes, que desceu da carroda emocionada ao final do desfile.
“É uma emoção, é um conteúdo revolucionário. Só o que eu pude pensar, e chorar, é: por que a gente não põe em prática essa letra? O acesso à terra, o cuidado com a natureza, que as pessoas têm alimentação”, disse a ministra.
Apoiador do MST, o ex-jogador de futebol Raí compôs o tempo dos destaques no carro dos homenageados. Para ele, o enredo do Tatuapé legitima a luta do movimento pela justiça no campo. “Pra mim, representa justiça social num país tão abundante de terras, como diz a letra da música, com muita terra para poucos”.
Com este desfile, o MST comemora 30 anos de história nos carnavais de sambódromos. Em 1996, a escola Império Serrano desfilou na Sapucaí, no Rio de Janeiro, com o enredo “E Verás Que Um Filho Teu Não Foge à Luta”. O samba homenageava o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho (1935-1997), coordenador da Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida. Militantes do MST desfilaram em alas representando a reforma agrária.

O movimento também já esteve presente nos desfiles das escolas Nenê de Vila Matilde e Camisa Verde e Branco, em São Paulo; e com a Vila Isabel, no Rio de Janeiro.
“Trazemos de volta a pauta que ficou escondida por muito tempo. É muito importante. Temos muita gente acampada no Brasil, muita gente morando debaixo da lona preta. E vir pro sambódromo em São Paulo, trazemos a pauta da discussão da distribuição de terras”, diz Sebastião Aranha, assentado pela reforma agrária há 25 anos, morador do assentamento Pirituba II, em Itaberá, no interior de São Paulo.
‘Nosso povo’
Na arquibancada do Anhembi, Gene Santos, da Direção Nacional do MST, mantinha o olhar fixo na avenida. A cada nova alegoria, os olhos brilhavam. “Coisa linda, meu Deus do céu”, exclamava.
Foi a primeira vez que ele assistiu ao desfile no sambódromo. “É o nosso povo!”, exclamou, ao ver passar a ala do cacau, formada pelos sem-terras.

Gene veio do assentamento Monte Alegre, no Ceará, para prestigiar o desfile da Acadêmicos do Tatuapé.
“Essa essa fartura, a denúncia contra o agronegócio, essa questão da necessidade da reforma agrária como uma saída para o país… Eu acho que tá tudo muito emocionante, muito emocionante”, celebrou.
Ao todo, o MST levou para o Sambódromo do Anhembí cerca de 200 pessoas. Dessas 60 desfilaram na ala do cacau. Outros estavam no carro alegórico dos homenageados e muitos na arquibancada, balançando os bonés diante dos acenos dos companheiros que passavam pela avenida.