Ao som de tambores, Ilú Obá de Min abre carnaval de rua de São Paulo homenageando sacerdotisa africana – Brasil de Fato

Ao som de tambores, Ilú Obá de Min abre carnaval de rua de São Paulo homenageando sacerdotisa africana – Brasil de Fato


O bloco afro Ilú Obá de Min abriu oficialmente o carnaval de rua de São Paulo na noite desta sexta-feira (13), com um cortejo de tambores, canto e dança pelas ruas do centro da cidade. Feminista e antirracista, o bloco é composto por cerca de 400 pessoas entre a bateria, com alfaia, xequerê e agogô, o corpo de dança, que inclui brincantes com pernas de pau, e o coro de vozes.

A edição de 2026 prestou homenagem à figura da sacerdotisa africana Ifatinuké, reforçando a festa como expressão cultural e política da ancestralidade e da luta das mulheres negras.

A concentração começou na Praça da República, na região central da capital paulista, a partir das 19h, com muita alegria, apesar da forte chuva que caiu na cidade no final da tarde. A tempestade atrasou a saída, mas não impediu o bloco tradicional.

O desfile passou pela avenida São João, rua da Consolação, na famosa Praça Ramos e terminou no Largo do Paissandu, ao som de ritmos que dialogam com tradições afro-brasileiras, como jongo, maracatu e cânticos inspirados nas religiões de matriz africana. Centenas de pessoas participantes do cortejo.

cortejo do ilu obá de min
Cena do cortejo do Ilu Oba de Min, bloco tradicional que abre o Carnaval paulistano

À frente, como Yalorixás, vestidas de branco, puxam o bloco. Em seguida, grupos de participantes, com vestimentas sagradas dos orixás, colorem e movimentam o bloco, junto a passistas em pernas de pau e bateria, formados por ofertas de mulheres. O bloco pesado com cânticos em língua iorubá. Após uma breve pausa, o bloco fez um “xirê” (a roda em que dançam os orixás), cantando primeiro para Oxalá. Palavras de ordem contra o machismo, a homofobia e o racismo surgiam a todo momento.

Seguindo uma tradição de reverenciar mulheres negras promessas o enredo deste ano Ifatinuké – Iyá-Olobá do Axé Transatlânticocelebra a vida e legado da sacerdotisa africana que, segundo o grupo, representa a circulação de saberes e espiritualidade entre continentes, ressignificando espaços de pertencimento e resistência.

Também conhecido como Inês Joaquina da Costa ou Tia Inês, Ifatinuké é oriunda de Oyó, um dos reinos mais importantes do território atualmente conhecido como Nigéria. Ela chegou ao Brasil na década de 1870 e fundou o Terreiro Nagô Iemanjá Ogunté Obaomin, no Recife (PE).

Membro do bloco Ilú Obá de Min há 15 anos, Cibele de Paula destaca que a homenagem ajuda a romper o senso comum sobre a história do povo preto. “A importância desse tema é evidenciar o poder da narrativa preta de permanência resistência, do continente para cá. A gente tem uma narrativa de escravidão, de diáspora e a história de Ifatinuké traz uma estratégia de Oió, de permanência o seu legado preto, de cultura, de população, de África para o Brasil”, explica.

Ilú Obá de Min significa “mãos femininas que tocam para o rei Xangô”

Participando pela primeira vez, a psicóloga Janice Plácido de Jesus considera muito importante que as mulheres negras ocupem as ruas da cidade e tratem de temas tão importantes como ancestralidade, direito das mulheres, racismo, machismo, homofobia. “É muito significativo que um bloco assim abra o carnaval de rua em uma cidade como São Paulo, mostrando o caminho que a gente deve caminhar”, afirmou.

Em uma tradução do iorubá com licença poética, Ilú Obá de Min significa “mãos femininas que tocam para o rei Xangô”. A ideia foi dada por Beth Beli em novembro de 2004, quando ela, Girlei, Nega Duda e Adriana Aragão fundaram o bloco com a proposta inédita em São Paulo de um coletivo composto por mulheres.

Foi então que, há cerca de duas décadas, o Ilú tomou as ruas do centro da capital paulista pela primeira vez, com aproximadamente 50 mulheres. O tema do primeiro carnaval do bloco foi a Rainha Nzinga. Vinte anos depois, a agregação é oito vezes maior.

O grupo, sem fins lucrativos, se define como um “ecossistema afrocentrado” e uma “irmandade que valoriza as mais velhas como protagonistas” de suas ações.

Agremiação começou em 2004 com 50 integrantes e hoje tem oito vezes mais participantes
Agremiação começou em 2004 com 50 integrantes e hoje tem oito vezes mais participantes | Crédito: Vitor Shimomura/Brasil de Fato

Yalorixá e enfermeira, Zuleica de Souza destaca que desfilar no Ilú Obá de Min é valorizar o axé ancestral que tanto se transferiu para que hoje houvesse a possibilidade de mulheres e homens desfilarem sua fé pelas ruas da capital paulista.

“Representa valorização. Representa o respeito que ainda existe dentro da comunidade do Axé, o reconhecimento entre nós que existe dentro da comunidade do Axé. Representa também uma homenagem aos ancestrais, que lutaram tanto para a gente ter essa liberdade de manifestar o nosso culto religioso com maior liberdade, mesmo diante dos enfrentamentos. Hoje, graças a eles, a gente pode estar aqui vestido com as nossas roupas de santo, provando nossos orixás no carnaval, em pleno centro da cidade”, disse Zuleica.

Para Zuleica, o Ilu Obá de Min vai muito além da arte, da dança, do teatro, do grupo dialoga com as tradições femininas, negras e também da cultura e das religiões afro.

“Ele tem essa representação da atividade feminina que simplesmente representa as mães, todas as mães e as mulheres negras que ajudaram a construir esse país, através da arte, da cultura, da arquitetura, do teatro, da música, do canto. As mulheres são seios que amamentaram muitas pessoas nesse país, desde lá de trás. E o trabalho também de luta, sempre junto com as lideranças políticas, que estão aliadas dentro desse movimento contra o racismo, contra a intolerância religiosa”, explica.

Para a deputada estadual paulista Ediane Maria (Psol), o bloco Ilú Obá de Min representa justamente “a raiz do nosso país”. “Falando de ancestralidade, de raiz, da força do Axé e toda a sua construção. A gente sabe que os terreiros que hoje defendem uma religião de matriz africana estão sendo atacados duramente pelo nosso país, desde o governo [de Jair] Bolsonaro. A gente tá aqui hoje abrindo o carnaval e dizendo que a cultura popular é resistência do nosso país”, afirmou.


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