Bad Bunny e o despertar do monstro: por uma nova atitude masculina – Brasil de Fato

Bad Bunny e o despertar do monstro: por uma nova atitude masculina – Brasil de Fato


O domingo à noite encerrou a semana com aquele belo momento, a apresentação do Coelho Mauque eu e milhões de pessoas tiveram a privilégio de assistir ao vivo. Uma demonstração do poder da linguagem na mobilização. Não foi pouco, e bastou alguém falar em espanhol no intervalo do SuperBowl para virar o assunto mundial e o desafio do momento à direita, que entra em parafuso ao sacrificar suas peças no jogo do xadrez político. Donald Trump se sentiu ofendido, mas a América Latina se esforçou naquele momento para a possibilidade de movimentação. Dizer que “a única coisa mais poderosa que o ódio é o amor” é maravilhoso. Talvez não corresponda à vida real, mas que tombemos falando isso: sempre haverá uma repercussão nas mentes daqueles que pensam se pegam o ônibus da linha da extrema direita com objetivo de ir ao centro. Sempre podemos mudar de opinião…

Ao comentar com um amigo psicanalista, ele não vacilou ao comentar: “Benito fez da arte um ato político que toca direto nos que sofrem os efeitos da violência fascista. Dá voz a indignação e chama uma afirmação do eu e da massa contra um discurso totalitário, de ódio, colonial à moda antiga, que tenta silenciar o outro através do medo. Ele foi de uma coragem imensa. Ponto de referência para identificação de massa, dessa massa amedrontada pelas clínicas do GELO trumpiano.”

Bad Bunny em show na Colômbia | Crédito: Jaime SALDARRIAGA/AFP

Pois hoje acordei vendo um vídeo da jornalista e escritora Milly Lacombe. Ela analisou o caso Epsteintirando o foco do “monstro individual” e deslocando para o monstro da pedofilia latente que se esconde no poder, na força do silenciamento sobre as mulheres e nas conexões racistas. Lembra que a direita está em silêncio nessa situação, mas talvez a síntese mais representativa seja que tenhamos que tirar as camadas de horror e de distância para enxergarmos que isso representa um projeto de sociedade. Mais que isso: se reproduz da forma mais intensa possível da porta para dentro de cada lar.

Comecei a ouvir uma rádio de São Paulo, como sempre faço, aguardando um comentário político que me agrada, de Mônica Bergamo. Pois naqueles poucos minutos, ouvi o caso envolvendo o Ministro do Superior Tribunal de Justiça, e as extensões que começaram a aparecer. Ouvi a ocorrência envolvendo o rabo do gato puxado em mais uma rede de pedofilia, aparecendo um piloto, daqueles que levam centenas de pessoas diariamente para lá e para cá… A seguir, outro caso envolvendo uma adolescente abusada por um motorista de aplicativo. A locutora, chorando, contando que a vítima, uma menina de dezassete anos, dizendo que se sentia um lixo, em mensagem para a mãe.

Sabemos que isso não é nem a ponta do iceberg. A monstruosidade nas portas das casas de todos. Da porta para dentro, em grande parte.

A seguir, ainda na rádio, entra a notícia de uma mulher ainda em coma após receber dezessete facadas do companheiro. Nada disso é novidade, e tudo isso está sendo o cotidiano.

O rapper porto-riquenho Bad Bunny na final masculina do torneio de tênis US Open/AFP | Crédito: Reprodução/AFP

Bem, a seguir a leitura de um artigo, que lembra, na síntese, que na derrocada da masculinidade tóxica ou não da mulher é respondido com uma mão cheia acertando seu rosto, na melhor das hipóteses.

Uma amiga me disse que “parece que algo no tecido social irrompeu como se um monstruoso adornado tivesse acordado faminto; é uma autorização que esta “cultura” da direita trouxe para a cena“. Exato, mas não exclusivamente. Ela difunde e se imiscui para todos os lados.

Se esse monstruoso que irrompeu no tecido social encontra autorização em uma cultura que valida o ódio, cabe aos homens abandonarem o papel de meros cronistas da barbárie para se tornarem agentes ativos da extinção da masculinidade tóxica que golpeia o “não” feminino. A particularidade de testemunhar a potência mobilizadora e calorosa da arte de Bad Bunny deve se converter na urgência de encarar o horror que se reproduz, muitas vezes, da porta para dentro de nossos próprios lares. É preciso que o “eu” masculino emerja da forma de análise intelectual para praticar um amor que seja, de fato, mais poderoso que o ódio, desmantelando as redes de silenciamento e as conexões que sustentam esse projeto de sociedade violenta. No xadrez da vida real, não basta entender o jogo: é preciso que os homens tenham a bravura de cair nas peças do totalitarismo antes que o monstro devore o que resta de nossa humanidade.

*Carlos Eduardo Nery Paes é médico.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expresso na linha editorial do jornal Brasil de Fato.


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