Pontos-chave
– São Paulo autorizou dois megablocos – o Bloco Skol da Ambev com Calvin Harris e a tradicional Acadêmicos do Baixo Augusta – na mesma rua do centro da cidade com horas de diferença, causando o esmagamento de barreiras, a interrupção de apresentações e pessoas subindo em banheiros portáteis para escapar de pisoteios.
– A prefeitura, a polícia militar e a Ambev não divulgaram estimativas de multidões, números de tratamento médico ou números do pessoal de segurança, enquanto o prefeito Ricardo Nunes rejeitou o caos nas redes sociais dizendo que “estava tudo bem”.
– O incidente expõe tensões em um festival que explodiu de 22 quarteirões em 2012 para 627 este ano, com a cidade cortando R$ 12 milhões de seu próprio orçamento de infraestrutura e entregando à Ambev zonas comerciais exclusivas no valor de R$ 29,2 milhões em patrocínios.
O DJ escocês Calvin Harris voltou ao Brasil após 11 anos no domingo para ser a atração principal de um desfile gratuito de Carnaval no centro de São Paulo. O que deveria ter sido um momento marcante tornou-se um estudo de caso sobre falha na segurança de multidões e silêncio municipal.
A prefeitura autorizou o Bloco Skol, apoiado pela Ambev – com participação de Harris, Nattan, Xand Avião, Zé Vaqueiro e Felipe Amorim – na Rua da Consolação a partir das 11h30, com a Acadêmicos do Baixo Augusta, que atrai rotineiramente cerca de 1,5 milhão de pessoas, seguindo na mesma rua às 14h.
O Conselho de Segurança Comunitário local alertou que o corredor não poderia absorver duas grandes multidões, mas a decisão foi tomada unilateralmente.


Ao meio-dia o bloco da Skol parou de se movimentar. Nattan interrompeu sua apresentação três vezes para direcionar os paramédicos aos foliões em colapso; Felipe Amorim gritou do trio elétrico para os bombeiros.
Barreiras cederam, ambulâncias não conseguiram passar e pessoas desesperadas escalaram banheiros portáteis e construíram portões para escapar. Às 14h55 a cidade ativou um plano de contingência, fechando acessos e removendo barreiras nas ruas como rotas de fuga.
Harris se apresentou com mais de uma hora de atraso; o desfile do Baixo Augusta atrasou duas horas. Seu fundador, Alê Youssef, disse ao O Estado de S. Paulo que a cidade “não entende nada de Carnaval” e chamou a programação de “insana”.
Carnaval corporativo sobrecarrega a segurança pública
Apesar de terem sido destacados 58.000 agentes de segurança, 40.000 câmaras de vigilância e 960 funcionários médicos em toda a cidade, as autoridades não explicaram porque é que o acordo foi aprovado.
O prefeito Nunes reconheceu um “volume absurdo de gente”, mas insistiu que “estava tudo bem”. Nem a prefeitura, nem a polícia nem a Ambev divulgaram números de multidões ou de tratamento.
O caos aprofunda uma falha geológica existente. Professor Guilherme Varella da Universidade Federal da Bahia argumenta que isso reflete a prioridade dos patrocinadores corporativos, observando que o patrocínio de R$ 29,2 milhões da Ambev compra zonas exclusivas de bebidas, enquanto blocos menores – alguns cancelados por falta de subsídios congelados em R$ 25 mil desde 2024 – são instruídos por Nunes a mostrar “espírito empreendedor”.
Os conservadores apontam sobrecarga logística em um festival que projeta 16,5 milhões de foliões e R$ 3,4 bilhões em impacto econômico. Os progressistas veem as autoridades priorizando os megaeventos em detrimento dos blocos populares que reconstruíram o Carnaval de rua da cidade sob as políticas culturais da era Haddad.
Vídeos de barreiras em colapso inundaram X em poucos minutos. Harris, que postou anteriormente uma camisa brasileira com o apelido “Calvinho” no Instagram, não comentou. Nenhuma mudança de programação foi anunciada para os finais de semana restantes.