O presidente Miguel Díaz-Canel concedeu, nesta quinta-feira (5), uma extensa coletiva de imprensa na qual explicou as medidas de emergência que o governo está adotando agora da crescente hostilidade dos Estados Unidos.
Ao iniciar, o presidente informou que, diante da crise que o país atravessa, as mais altas autoridades — incluindo o Conselho de Defesa Nacional — estão atualizando “o plano a ser executado a partir das diretrizes do governo para enfrentar uma escassez aguda de combustíveis”.
Além disso, diante das reiteradas acusações de Washington, assim como da imprensa hegemônica, sobre um suposto “colapso iminente” do país, o mandatário cubano lembrou que, ao longo de mais de seis décadas, o país apresentou “com muita resistência” às máximas pressões da principal potência mundial. Segundo Díaz-Canel, “a teoria do colapso”, como a denominação, estaria relacionada à “teoria do Estado falido e a todo um conjunto de construções que o governo dos EUA utilizou para caracterizar a situação cubana”.
Ao registar as recentes declarações de Trump, que numa entrevista televisiva afirmou que Washington já estava exercendo toda a pressão possível e ameaçou dizendo que “não se pode exercer muito mais pressão, a não ser entrar e destruir o lugar”, o presidente cubano indicou que, em Cuba, não existe um “Estado falido”, como aponta o governo estadunidense. Díaz-Canel reiterou que Cuba é “um estado que teve de enfrentar com muita resistência as máximas pressões, não de qualquer um, mas as máximas pressões para o sufocamento econômico pela principal potência mundial”.
“Nascemos e vivemos bloqueados, e nascemos sob os sinais desse sufocamento econômico. Sempre tivemos carências, sempre enfrentamos dificuldades complexas, sempre relato de operar em meio a vicissitudesimposições e pressões que não são impostas a ninguém no mundo, e muito menos de maneira tão prolongada.”
Diálogo com os Estados Unidos
Com relação aos possíveis diálogos e acordos entre Havana e Washington, Díaz-Canel lembrou que, desde o triunfo da Revolução, a “posição histórica de Cuba” sempre defendeu a disposição para o diálogo, desde que seja respeitada a soberania da nação caribenha.
Ele ressaltou que se trata de “uma posição definida e defendida pelo comandante em chefe Fidel Castro, que foi continuada pelo general do Exército Raúl Castro e que, a meu ver, é inalterável e invariante nos momentos atuais”.
“Cuba está disposto a dialogar com os Estados Unidos, a dialogar sobre qualquer um dos temas que queira debater”, enfatizou, ao afirmar que a única condição é que o diálogo ocorra “a partir de uma posição de igualdade e pleno respeito à soberania, independência e autodeterminação de Cuba”.
Também destacou que é possível “construir uma relação civilizada” entre os dois países, o que poderia ser benéfico para seus povos.

Resistência criativa
Foi a primeira posse do governo cubano diante da imprensa após Washington decidir suportar ainda mais sua política de guerra econômica contra a ilha, por meio de uma ordem executiva — assinada na quinta-feira passada (29) — que declara uma “emergência nacional”, sob o argumento de que Cuba representa uma suposta “ameaça incomum e extraordinária” à segurança dos Estados Unidos.
Com o objetivo explícito de divulgar o estrangulamento energético da ilha caribenha, a ordem executiva ameaçada tarifas de importação para países que “vendem ou fornecem petróleo a Cuba”.
Calcule-se que Cuba produza aproximadamente um terço do petróleo necessário para o seu abastecimento energético, enquanto os dois terços restantes dependem de importações. Dessa forma, a agressão de Washington busca afetar múltiplos aspectos da vida na ilha, desde a mobilidade das pessoas até a produção e o transporte de bens e serviços, incluindo alimentação, educação e saúde, intensificando assim o “castigo coletivo” que implica o bloqueio ilegal.
Durante a coletiva, Díaz-Canel voltou a enfatizar a necessidade de construir uma “resistência criativa”, conceito que tem sido defendido reiteradamente nos últimos tempos.
“A resistência criativa tem a ver com a defesa de ideias e convicções nas quais são consideradas, assim como com uma verdade de vitória”, assegurou, acrescentando: “Não sou idealista. Sei que vamos viver tempos difíceis. Já tempos vividos difíceis, e estes em particular serão. Mas vamos superá-los todos entre, com resistência criativa, com o esforço e o talento da maioria dos cubanos e cubanos”.
Além disso, destacou que cada solução buscada deve contar com “a participação popular”, à qual chamou para fortalecer e aprofundar diante do que essas “insuficiências”.
A Revolução Cubana e a Venezuela
Sobre a relação com a Venezuela, Díaz-Canel afirmou que, apesar das tentativas de apresentá-la de outro modo, não se trata de uma relação de dependência. O mandatário enfatizou que essa visão simplista reduz o vínculo a uma mera troca de bens e serviços e ignora a realidade complexa e sólida construída com a Revolução Bolivariana desde a liderança de Chávez.
Explicou que, ao longo de mais de 25 anos, os acordos entre os dois países tiveram como objetivo estabelecer laços de cooperação e solidariedade, com um “foco no social e na justiça social”, e destacou que tais acordos inspiraram a criação da Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América – Tratado de Comércio dos Povos (Alba-TCP), permitindo implementar esses “princípios de integração a vários países da América Latina e do Caribe”.
“Os acordos buscavam a integração da América Latina e do Caribe, aquela integração sonhada por Martí e Bolívar, e defendida por Fidel e Chávez”, afirmou.
O presidente cubano mencionou que, desde dezembro passado, Cuba não recebe petróleo da Venezuela devido ao bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos contra o país. Indicou que essa situação se agravou após o bombardeio de Washington contra Caracas e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, a deputada Cilia Flores.
Sobre o futuro dos vínculos com a Venezuela, Díaz-Canel afirmou que dependerão da “capacidade” de ambos os países de construir “esse futuro a partir da situação presente de uma Venezuela que foi agredida, à qual sequestraram ilegalmente o presidente e sua esposa, e os mantêm presos nos Estados Unidos”.
Ao enfatizar que a colaboração de Cuba é fundamental na solidariedade e na resposta aos pedidos de outros povos e governos, afirmou que, “enquanto o governo venezuelano favorecer e defender a colaboração, Cuba estará disposta a colaborar”.

A resistência do Sul Global
Em relação à crescente agressividade dos Estados Unidos, o presidente Díaz-Canel afirmou que “o mundo não pode se deixar dominar, o mundo não pode se deixar humilhar, o mundo não pode permitir que uma força destrua o multilateralismo”.
Para ele, o mundo vive uma “guerra não convencional”, através da qual os Estados Unidos tentam importar “os paradigmas e padrões” do que chamou de sua “filosofia imperial”. Diante disso, defendeu a necessidade de “alcançar uma mobilização anti-hegemônica” e “uma articulação antifascista”.
Referindo-se à difícil situação que Cuba atravessa, constatou-se que “pode haver preocupação na população”. No entanto, ressaltou os mecanismos de participação popular na tomada de decisões para enfrentar uma crise.
Por sua vez, destacou que, embora “Cuba seja um país de paz”, a doutrina de defesa nacional é “a concepção da guerra de todo o povo”, definida como “um conceito de defesa da soberania e da independência” que não contempla “a agressão a outro país”.
Além disso, explicou que os sábados foram declarados como “dias nacionais da defesa”, através dos quais estão sendo estabelecidos os “sistemas defensivos territoriais” para enfrentar possíveis agressões. Também indicou que o “plano para a passagem ao estado de guerra, se necessário”, foi atualizado.
Transição energética e cuidado com os mais vulneráveis
O presidente explicou que, há aproximadamente dois anos, o país tem priorizado avançar em uma transição energética para fontes renováveis que possam ser produzidas localmente. Sinalizou que, em apenas um ano, a produção de energia solar passou de 3% para 10%. Ressaltou os avanços alcançados no último ano e destacou o trabalho dos cientistas cubanos “apesar das enormes dificuldades”.
Informou que o Estado cubano está instalando 5 mil sistemas fotovoltaicos em residências que não possuíam eletricidade, localizadas em áreas rurais e de difícil acesso. Além disso, indicou que, com carácter de urgência, outros 5 mil sistemas fotovoltaicos estão a ser instalados em “centros apropriados para prestar serviços à população”, como lares maternos e de idosos, policlínicas e residências de crianças com doenças que dependem de equipamentos eléctricos, entre outros.
Como parte das prioridades da Revolução, informou também que serão destinados mais 10 mil sistemas fotovoltaicos para que profissionais da saúde, educação e demais trabalhadores essenciais possam adquirir-los com “facilidades de pagamento” para residirem em suas residências.
‘Uma inquietação com compromisso’
Em um dos momentos mais emocionantes de seu discurso, Díaz-Canel se referiu à juventude cubana que, dia após dia, enfrenta as agressões imperialistas, afirmando: “É de tirar o chapéu”.
“Cada vez que me encontrei com jovens, que participei de debates com eles, sempre aprendi e me nutri de experiências e perspectivas”, destacou o presidente. Acrescentou que, ao ouvi-los, é possível ver as coisas “de outra maneira: mais atualizado, mais contemporâneo, mais ousada. E essa ousadia, essa inquietação com compromisso, faz muito bem à nação e a tudo o que queremos realizar”.
Afirmou que é lógico confiar nos jovens, já que sempre desempenharam um “papel fundamental” na história de Cuba, e destacou que as novas gerações reúnem esse mesmo “legado” histórico.
“Confiamos esses jovens. E que exemplo melhor sintetiza os valores e o projeto dessa juventude nos momentos atuais? Os 32. Essa é a nossa juventude. São presente e futuro da nação, presente e futuro da pátria, e é preciso cuidá-los muito”.