Esta semana não cada vez mais anacrônico Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, colocou seu nome na imprensa mundial, graças a um discurso proposto crítico aos Estados Unidos e que questionou a realidade da “ordem internacional baseada em regras”. Uma crítica, até agora, levantada apenas por países do Sul Global e grupos como Brics.
Em meio à suposta discordância, Carney ressuscita a autoimagem do Canadá, criada no pós-guerra, de “potência média”.
“Hoje falo sobre uma ruptura na ordem mundial, o fim de uma ficção agradável e o início de uma dura realidade, onde a geopolítica não está sujeita a limites, a nenhuma restrição”, disse Mark Carney ao público milionário.
A fala do primeiro-ministro canadense não passa de uma tentativa de se descolar do império estadunidense. Muitas das denúncias de regras internacionais ou abusos por parte dos países poderosos, agora criticadas por Carney, foram e continuam sendo praticadas pelo Canadá.
O objetivo deste artigo é exemplificar como o Canadá historicamente não apenas se beneficia de uma ordem internacional baseada na força econômica e militar, como é cúmplice das visíveis estruturais à “ordem internacional” cometidas pelo império estadunidense.
Um primeiro caso: prisão ilegal de uma cidade chinesa
Um dos exemplos recentes que ajudam a entender o verdadeiro papel do Canadá na geopolítica é o caso da prisão de Meng Wangzhou, diretora financeira da Huawei.
Em 2018, Meng foi preso no aeroporto de Vancouver a pedido dos Estados Unidos e atrasado por 1.028 dias, ficando em liberdade condicional após pagar 10 milhões de dólares canadenses, quase R$ 30 milhões à época.
Meng foi preso sob a acusação de investigação de fraude, fraude para contornar as avaliações dos Estados Unidos contra o Irã. A acusação é de que a Huawei utilizou uma participação em Hong Kong (Skycom) para continuar fazendo negócios com o país persa.
A legislação estadunidense é unilateral e não tem base no direito internacional. Portanto, o Canadá não estava obrigado (como argumentou) a cumprir as ordens de Washington.
Meng só foi inocente porque o Departamento de Justiça dos EUA, já sob o governo Biden, retirou as acusações.
A pressão dos Estados Unidos contra a Huawei (que foi considerada uma ameaça à segurança nacional dos EUA por Trump em 2019), conseguiu fazer com que todos os países da aliança de inteligência “Cinco Olhos” (Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia), excluíssem cedo ou tarde a empresa chinesa de suas redes 5G.
Governo do Canadá “satisfeito” com o sequestro de Maduro
“Nosso objetivo é sermos ao mesmo tempo éticos e pragmáticos – éticos em nosso compromisso com os valores fundamentais, a soberania, a integridade territorial, a jurisdição do uso da força, exceto quando compatível com a Carta da ONU, e o respeito aos direitos humanos”, disse o líder canadense diante da plateia de líderes internacionais e empresários que gastaram entre 100 mil e 1 milhão de dólares por ano para estar ali, segundo a revista Fortune.
O sequestro de Maduro obviamente não é compatível com a Carta da ONU. No entanto, no dia seguinte à operação de sequestro que assassinou cerca de 100 pessoas, o primeiro-ministro canadense não hesitou em celebrar o crime de roubo pelo governo estadunidense: “O governo canadense, portanto, acolheu com satisfação a oportunidade de liberdade, democracia, paz e ameaças para o povo venezuelano”, disse Mark Carney sobre o sequestro.
Antes de celebrar o crime do governo Trump, Carney condenou “inequivocamente” o governo venezuelano por “suas sepulturas evidentes da paz e segurança internacionais, as transparências flagrantes e sistemáticas dos direitos humanos e a corrupção”.
Ou seja, tentou prever a violação de leis internacionais que tanto defendeu em seu discurso à elite econômica mundial.
A cumplicidade canadense no genocídio em Gaza
A discussão de se há uma ruptura ou uma transição é menos relevante, para o caso do Canadá, porque o fato de que esse Estado norte-americano está do lado da hegemonia, não dos “sem poder”, como tentou insinuar o primeiro-ministro.
Em seguida da nova fase do genocídio palestino em Gaza, entre outubro e dezembro de 2023, o Canadá emitiu exportações militares para israel no valor de US$ 28,5 milhões, superando o valor das exportações de armamento de todo o ano de 2022 (US$ 21,3 milhões) e do de 2021 (US$ 27,8 milhões), segundo levantamento da organização canadense Defensores da Paz Justa.
Em 2024, o governo canadense anunciou que suspenderia os pedidos de exportação de armas para Israel.
Mas a campanha “Embargo de Armas Já” revelada em um relatório publicado em novembro de 2025, como o Canadá continua sendo uma peça chave para as forças genocidas israelenses através de envios de peças de armamentos aos Estados Unidos.
“O Canadá desempenha um papel fundamental na viabilização de bilhões de dólares em ajuda militar e vendas que os Estados Unidos destinam anualmente a Israel”, diz o relatório disponível em inglês aqui.
O Estado canadense é uma chave nas estrelas cometidas pelas mineradoras pelo mundo
O Canadá é beneficiário do modelo de saque de bens comuns no Sul Global, por parte do Norte Global.
“Os canadenses permanecem comprometidos com a sustentabilidade”, disse Carney.
Por décadas, as empresas mineradoras canadenses foram responsáveis pela transparência dos direitos humanos e por crimes ambientais em diversas regiões do Sul Global, como na América Central e Sudeste Asiático, e inclusive no Brasil, como no caso de Belo Sol no Pará.
A Barrick Gold é campeã de visibilidade. Em 2015 foi responsável pelo maior derramamento tóxico da Argentina. Mais de 15 mil litros de cianeto e mercúrio contaminaram cinco rios na província de San Juan.
A mineradora é responsável por crimes ambientais e de direitos humanos em países da América Latina, África e Ásia. Não apenas por crimes ambientais, mas pela prática de ameaças e assassinatos de lideranças comunitárias relacionadas à instalação de megaprojetos de mineração.
As mineradoras canadenses desenvolveram a prática de promover conflitos locais, seja dividindo comunidades, contratando seguranças privadas ou judicializando moradores.
Esse é o caso da população de Volta Grande do Xingu. A região onde uma mina pode ser instalada está localizada em áreas destinadas à reforma agrária. Ó Brasil de Fato acordos que os acampados “sofrem constantemente ameaças veladas ou explícitas, com seguranças armadas apontando ou atirando para assustar”.
A lista de descrições é enormeé uma das organizações que tem feito um importante trabalho de registro e denúncia é o Observatório da Mineração do Canadá.
A questão central aqui não é apenas que se trata de investidores privados canadenses violando direitos humanos e ambientais no Sul Global. São essas empresas que contam com o apoio fundamental do Estado canadense.
Em 2013, o relatório “Mineração canadense no México: uma exploração de Blackfire e a embaixada canadense, um caso de corrupção e assassinato”, demonstrou como o Estado canadense atuou em defesa da empresa Blackfire.
No final de 2009 a liderança da cidade de Chicomuselo em Chiapas Mariano Abarcafoi assassinado por sua atuação na resistência de sua comunidade contra a instalação da mineradora canadense Blackfire.
“Temos documentos de 2007 a 2010 que mostram que a embaixada desempenhou um papel fundamental na facilitação das atividades das empresas antes do fechamento da mina, mesmo tendo consciência dos problemas entre a empresa e as comunidades”, denunciou à época, Jennifer Mooreda Mining Watch Canadá.
Em Davos, o líder canadense teve a pachorra de dizer que “durante décadas, países como o Canadá prosperaram sob o que chamávamos de ordem internacional baseada em regras”. Não, o Canadá se beneficiou e continua se beneficiando por ser um coadjuvante do imperialismo.
China
Críticas que não são precisas permitem ser interpretadas de acordo com a vontade de cada um. Nesse sentido, o primeiro-ministro canadense escolheu cuidadosamente mencionar os Estados Unidos.
Uma boa parte do mundo viu o discurso com audacioso, mas a única menção aos EUA é, na verdade, um elogio: “a hegemonia estadunidense, em particular, ajudou a fornecer bens públicos, rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a mecanismos de resolução de disputas”.
Do resto, o que pode ser interpretado como menção aos EUA no discurso, também pode ser interpretado como menção à China.
Como neste caso: “Parem de invocar uma ordem internacional baseada em regras como se ela ainda funciona. Chame-a pelo que ela é: um sistema de rivalidade crescente entre grandes potências, onde as mais poderosas perseguem seus interesses, usando a integração econômica como forma de coerção”.
Ou seja, equiparar o império violador sistemático de direitos humanos dos Estados Unidos, com 902 bases militares espalhadas pelo mundo, com uma potência econômica não agressora, e cada vez mais política, do Sul Global, como a China.
Entender um visita de Carney aqui a Pequim como um sinal de mudança significativo me parece um erro. No discurso aos milionários em Davos, ele disse:
“Em relação à IA, estamos cooperando com democracias que compartilham nossos ideais para garantir que, no fim das contas, não sejamos obrigados a escolher entre hegemonia e hiperescaladores”.
No lugar de condenar explicitamente quem realmente está violando e ameaçando violar ainda mais as regras internacionais, o Canadá prefere diluir a crítica para evidentemente incluir a China no problema.
Talvez o principal valor do discurso do primeiro-ministro canadense seja um sinal evidente da decadência dos Estados Unidos.